Os alquimistas estão chegando!

Assim me dizem alguns contatos do Facebook, que compartilharam uma foto da tropa de choque da Polícia Militar de São Paulo sob esse título. Não exatamente assim, é claro: aproveitaram a oportunidade para fazer um trocadilho com o cidadão-de-bem que governa o Estado. Mas isto é o que menos importa. O essencial é que os alquimistas moram bem longe dos homens (donde se conclui que pertencem a uma espécie alienígena), escolhem com carinho a hora e o tempo do seu precioso trabalho e executam, segundo as regras herméticas, a trituração, a fixação, a destilação e a coagulação (BEN, Jorge, 1974). Tudo o que nos resta fazer é rezar para que esses extraterrestres sejam piedosos e reconheçam que somos um público diferenciado, de elite, que merece um tratamento decente – para isso, talvez precisemos da ajuda dos universitários do Butantã.

TEMPERAMENTO SÓRDIDO!

Basta de sarcasmo por enquanto. Esta ideia aparentemente progressista de que a polícia é, por essência, desumana e destacada do resto da sociedade pode não ter sido a intenção de quem fez o divertido trocadilho dos alckmistas. Porém, não se pode negar que ela acaba sendo implicitamente veiculada por mensagens desse tipo, e é tanto um sintoma quanto um problema em si. Sintoma de uma deficiência na formação dos policiais (no caso, os brasileiros) para lidar com uma sociedade de bases democráticas, na qual não se admite cercear, sem o devido processo legal, a liberdade de expressão e outros direitos fundamentais – como a própria vida – sob a alegação de desacato ou resistência à autoridade. A percepção dessa realidade pode criar um novo problema, porque dá margem a diagnósticos equivocados e propostas contraproducentes. É como dizer que todo homem é um estuprador em potencial e que, por isso – reparem na sofisticação do silogismo -, devemos nos fechar numa sociedade exclusivamente feminina, para evitar abusos (sim, há feministas que defendem isso seriamente. Não, nem todo mundo que se diz progressista tem boas ideias). O argumento essencialista, em vez de enfrentar as raízes daquilo que contesta, apenas cria mitos autorrealizáveis: o Estado repressor, a polícia autoritária.

Mas o que dizer dos espaços que se pautam pela circulação de ideias e pela contestação das correntes políticas dominantes? Faz sentido que esses espaços sejam compartilhados com agentes defensores da lei e da ordem? Não seria mais interessante que escolas e universidades, por exemplo, fossem isoladas da proteção policial comum e, no máximo, vigiadas por uma guarda especial, sensível às necessidades diferenciadas da comunidade acadêmica?

Peguemos o exemplo extremo do Texas, que todos adoram criticar de vez em quando, e construamos um argumento ad absurdum. Diversas escolas públicas do estado são vigiadas pela força policial comum, o que permite observar um esfacelamento da fronteira entre, de um lado, as atribuições de cumprimento (enforcement) da lei e, de outro, a repreensão a “desvios de comportamento” que não equivalem a delitos, no sentido específico criminal. Em outras palavras, temos policiais que levam crianças aos tribunais por chegarem atrasadas às aulas ou se vestirem “inadequadamente”. Essa cultura do medo é altamente prejudicial à formação de uma pessoa, certo? Ela deveria ter um espaço privilegiado para aprender e discutir sem ser incomodada com esse tipo de autoritarismo. Não é verdade?

Big Brother Brasil parece inofensivo perto disto.

Curioso é que quem usa esse argumento, em que pesem as boas intenções, esquece que vivemos na celebrada sociedade da informação, aquela que começou mais ou menos junto com a crise do petróleo (perdoem-me os historiadores pela aproximação temporal tosca e concedam-me essa licença poética). Portanto, antes do nascimento de Mark Zuckerberg e Lady Gaga. Não existe mais um espaço privilegiado onde as pessoas se formam intelectualmente, discutem ideias progressistas e conspiram – no sentido mais fofinho da palavra – para construir um mundo melhor. A internet existe (e já faz tempo). Você pode acompanhar um curso do MIT em bio-antropologia sem sair de casa e sem gastar um centavo, além de participar de fóruns online a respeito do tema. Se nós precisamos ter uma garantia de liberdade para a formação acadêmica e para a circulação de ideias, essa garantia não tem mais limites físicos – e, a bem da verdade, nunca teve. Autoritarismo e arbítrio nunca foram algo aceitável para uma sociedade que se pretendesse feliz e desenvolvida, qualquer que fosse o espaço.

“Mas nossa sociedade não tem uma cultura de contestação tão forte quanto nos espaços acadêmicos. É neles que se fomenta o dissenso. Por que eles não deveriam ser privilegiados com a ausência do law enforcement habitual?” Pois é. Vamos reproduzir a estrutura desse argumento em outros termos: nossa sociedade ainda não se acostumou com a ideia de conviver com imigrantes haitianos, de modo que eles deveriam ser protegidos de comportamentos racistas e xenófobos. Para isso, devemos criar guetos haitianos no Brasil onde nenhum brasileiro possa entrar, de modo que os imigrantes vivam livres de opressão. Isto seria uma solução adequada contra a xenofobia? Além de não corresponder à ideia de sociedade democrática e pluralista consagrada pela nossa Constituição, arrisco dizer que ninguém a consideraria uma solução inteligente.

Da mesma forma, uma sociedade não fica mais democrática quando se evita o diálogo e o contato entre os contestadores e os mantenedores da ordem. Os limites da atuação de cada um desses grupos – principalmente do segundo – são fixados e entendidos nessa convivência, muito embora ela possa gerar abusos e violações de direitos. Se a convivência pode ter resultados indesejados, a separação evita que sequer se reflita sobre os termos da relação protesto-polícia. (É interessante notar que a indignação dos estudantes da USP em relação à Polícia Militar, ainda que justificada, não teria a mesma intensidade se eles mesmos não tivessem testemunhado o arbítrio ao qual são submetidos muitos “cidadãos comuns” com frequência.) Enfim, o que está em jogo não é se deve haver contato, mas as condições desse contato: para que serve a polícia na nossa sociedade? Se ela não sabe respeitar a liberdade de expressão, por que ela existe?

“OK, então a polícia não serve para nada. Acabemos com ela de uma vez, em toda a sociedade!” Tem certeza? A polícia também é inútil quando ela usa sua autoridade para permitir que você distribua panfletos na frente de um estabelecimento comercial, cujo dono quer cercear seu direito de manifestação num espaço público? (A história é verdadeira e aconteceu no auge do movimento Occupy nos EUA, mas infelizmente perdi o link do relato. Para o meu argumento, ela valeria mesmo se fosse fictícia.) “Mas a polícia de verdade não é assim!” E não seria interessante para a nossa democracia ter uma polícia assim? Eu, humildemente, acho que seria. Não adianta reclamar de que a PM é autoritária se não temos a pretensão de construir algo melhor no lugar. Autoritarismo é como vírus: se você mata um hospedeiro, nada garante que a doença tenha sido erradicada. No caso da polícia brasileira, logo apareceria outro hospedeiro para ser igualmente crucificado, sem que fosse dada atenção ao próprio vírus.

A foto da tropa de choque e seus alckmistas foi acompanhada, no Facebook, da expressão “TEMPERAMENTO SÓRDIDO!”. É uma pena que quem inventou esse meme não tenha usado o verso inteiro da canção, para lembrar que os alquimistas são virtuosos e “evitam qualquer relação com pessoas de temperamento sórdido”. Talvez seja só desonestidade na citação, uma licencinha poética para o meme ficar mais poderoso. Mas talvez seja também desconfiança na capacidade de reforma da polícia, na possibilidade de que ela venha a ter alguma virtude moral no futuro. E isso é algo desolador, especialmente vindo de pessoas que se consideram capazes de sonhar com um país melhor.

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About Bruna Pretzel

Arruma malas após a meia-noite e acredita em direito, política e linguagem para além dos contos de fadas.

One response to “Os alquimistas estão chegando!”

  1. Bruna Pretzel says :

    P.S.: Agradeço ao Wagner Artur pela revisão e pelos comentários!

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