A revolta das domésticas

Essa cruz está ficando mais pesada

A conceituada publicação internacional The Economist trouxe recentemente uma reportagem sobre um dos curiosos fenômenos que está fadado a se abater sobre o novo Brasil economicamente revigorado, agora 6ª maior economia do planeta. A escassez da famosa “Secretária do lar”, a tradicional empregada doméstica. Com a redução progressiva das desigualdades econômicas tem sido mais difícil arranjar aquela auxiliar para desempenhar as tarefas caseiras.

O motivo: o salário (magro) oferecido pelas famílias de classe média/alta para essas profissionais (numa classe laboral quase integralmente formada por mulheres com pouca ou nenhuma educação formal) não é mais convidativo o bastante. Em uma economia aquecida com vários postos de emprego, assim como possibilidades diversificadas de acesso à educação (de qualidade duvidosa, frise-se, mas isso é outra questão), o trabalho do lar simplesmente não compensa mais.

Os afazeres domésticos foram historicamente delegados no Brasil: primeiro os povos aprisionados, como índios e negros, e posteriormente com qualquer tipo de economicamente marginalizados ao alcance da parcela mais abastada da sociedade. Com a pobreza minguando fica mais difícil arranjar alguém pra limpar sua casa, fazer a comida e cuidar das crianças. Ao menos pelo salário tradicional. A saída lógica é a elevação natural dos salários, valorizando a profissão, buscando recuperar assim seus atrativos. Também há a possibilidade de modificação de costumes: a velha ideia de que com todos ajudando em casa é possível economizar na diarista e afrouxar o orçamento.

Mas provavelmente o que acontecerá será uma terceira opção: com a pujança do projeto Brasil Maior, e toda a riqueza que tem surgido no país, a tendência é que aconteça uma re-edição do American Dream: que o Brasil volte a ser um poderoso destino de imigração, tal como já o foi em várias outras ocasiões. Do mesmo modo que os sub-empregos norteamericanos são profundamente dependentes dos hispânicos, em pouco tempo talvez se torne uma realidade cotidiana a presença de estrangeiros latinoamericanos ocupando postos como empregadas, jardineiros, e afins. Ser a economia mais forte do continente tem esse efeito: atrair força de trabalho que não consegue ser absorvida por mercados menores. Como responderá o Brasil a essa mudança de paradigmas no mercado de trabalho?

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About Wagner Artur Cabral

filosofia política e futebol

4 responses to “A revolta das domésticas”

  1. Tamara says :

    Em BH vc pode escolher entre a Superempregada, que ganha mais de 3 mil e continua no regime de semi-escravidão (quase sem folga) ou a profissional, que ganha pouco mais que um caixa de supermercado mas só trabalha no horário comercial. Aqui em Natal ainda se consegue a escravidão quase completa (salário ridículo e folga a cada 15 dias). Mas acho q em pouco tempo acaba também. Com essa cultura da empregada ser tipo um agregado, que não merece um tratamento profissional, acredito q se essa força de trabalho de outros países chegar mesmo, será ainda menos respeitada, como se estivesse recebendo um favor e não realizando um trabalho digno. É assim q percebo a visão das patroas em relação às domésticas: seres que não tem direito a vida pessoal, existem só pra servir. Imagina se for um estrangeiro sem vínculos familiares no país, vão querer que fique 100% à disposição por um salário mínimo.

  2. André Castro says :

    E daí vem a questão da aceitação (ou não) do imigrante na sociedade brasileira, como ficou patente com este caso dos refugiados haitianos. Como faz?

  3. Maria Clara says :

    Fico pensando se o brasileiro irá abrir sua casa para os estrangeiros. O haiti e a situação boliviana demonstram que não há um esforço muito grande em receber os imigrantes dos países mais pobres.

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  1. Mercado de trabalho no Brasil 2.1 « Casa dos Comuns - February 1, 2012

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