No limiar dos banheiros

De artista controverso por seu trabalho a cidadão controverso por sua identidade: Laerte surpreendeu o país há mais ou menos 3 anos, se assumindo como bissexual e transgênero. Desde então o cartunista tem se vestido como mulher. As reações são variadas, mas geralmente pairam na zona da estranheza e desconforto. Um exemplo disso foi o incidente em que Laerte se envolveu recentemente ao usar o banheiro feminino – como normalmente faz – foi censurado pelo pai de uma menina e, subsequentemente, pelo gerente do estabelecimento. Uma explicação mais detida dos fatos pode ser encontrada nesta reportagem da Marie Claire (!). Como declara o próprio artista, é uma situação bem complexa:

“Se você, Marina, colocar um terno, não vai cruzar a linha do transgênero. Vai continuar sendo uma mulher, só que vestida de homem. Eu não. Sou transgênero, cruzei a linha da identidade de gênero, e gênero não é só genitália. É mais amplo, fala de toda uma identidade sexual. Por isso tenho de usar o banheiro do outro sexo”.

A abertura de possibilidades de gênero – é essencial numa sociedade democrática que haja espaço para que cada um manifeste-se como bem desejar, especialmente em um âmbito tão personalíssimo como sua sexualidade – trouxe esse possível inconveniente: é preciso rediscutir alguns costumes. Afinal, qual o motivo da separação de banheiros? Seria o caso de criar um terceiro banheiro obrigatório (“indecisos?”)? Um pai tem o dever de tutelar a exposição de seus filhos a qualquer comportamento “desviante” em matéria sexual? E, falando de formas pouco ortodoxas de vida, será que nós já não crescemos como sociedade o suficiente para parar de acreditar nesse mito platônico da normalidade?

O “normal” é uma quimera, um construto ideológico que existe somente para servir de arrimo para o caso concreto. Estabeleço um conceito de “normal” para definir um ideal a ser buscado. A questão é: nós não precisamos mais de padrões de normalidade outros além de uma vida dedicada à satisfação de seus valores pessoais – sejam eles a fortuna, o amor, a caridade, ou o que quaisquer outros admitidos pela lei. O comportamento de Laerte não é errado, é simplesmente incomum: cabe à sociedade discutir e buscar incluir mais uma possibilidade de vida às que já existem. E esse não é um juízo de valor pessoal, é uma simples decorrência da existência de uma democracia plural. Novas formas de vida precisam ser recepcionadas. Sua rejeição não pode jamais ser considerada “natural”, mas sim justificada. A argumentação não pode ser: “Laerte precisa comprovar a necessidade de usar banheiro feminino”, mas o inverso: “Qual a primazia que uma mulher portadora de uma vagina possui sobre uma pessoa que não a tem no uso desse banheiro?”.

Existe uma necessidade de resolver a questão de um grupo de pessoas como Laerte, que tende a se ampliar com o tempo. Mas também existe a necessidade de se fomentar um ambiente discursivo voltado para re-avaliação de alguns de nossos elementos sociais. E isso não precisa ser – como soa – chato. Em exemplos como o do cartunista podemos ver a vida real nos dar exemplos de como a vida contemporânea não cessa em nos fornecer exemplos intrigantes e veris, mesmo que seja na fila do banheiro, talvez te fazendo pensar em direitos fundamentais ao passo em que pondera porque diabos você precisa obedecer uma plaquinha e não pode simplesmente pegar a fila mais curta e ser uma pessoa um pouco mais feliz.

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About Wagner Artur Cabral

filosofia política e futebol

2 responses to “No limiar dos banheiros”

  1. Haniel Barbosa says :

    É legal ver o tema levado a sério (como realmente o é), em vez do pessoal fazendo piadinha no Twitter sobre como se discute coisas relevantes lá fora e aqui se discute “onde o Laerte mija”.

  2. Chalom says :

    Gênero e sexualidade são duas construções independentes. Precisamos tomar cuidado para não confundir os argumentos sobre as duas.

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