Nobel da paz para Bradley Manning?

Recentemente tem repercutido na internet uma sugestão interessante: a indicação do soldado norte-americano Bradley Manning ao prestigioso prêmio Nobel da Paz. Se você passou a última década embaixo de uma pedra em um grotão muito remoto, Manning foi responsável pelo maior ato de vazamento de informações sigilosas da história dos EUA, quiçá Ocidente, quiçá humanidade. Armado de um cd virgem com uma etiqueta “LADY GAGA” e coragem (ou falta de bom-senso), Bradley acessou os arquivos restritos (não os de alto nível, somente os mais básicos, nada sobre Roswell, infelizmente) e copiou milhares de relatórios, incluindo imagens e vídeos confidenciais sobre a Guerra do Iraque. E mais: junto vieram incontáveis exemplares de correspondência diplomática, nas quais os diplomatas norte-americanos reportavam com franqueza suas opiniões, muitas vezes pouco elogiosas, sobre o mundo a seu redor. Tudo distribuído pelo portal de vazamento digital de informações, o Wikileaks. Evidentemente Manning foi descoberto e preso, e atualmente está preso sem perspectiva de quando será julgado.

A despeito da obviedade que é o absurdo da situação em que um cidadão de uma (suposta) democracia fica detido sem processo, a possibilidade de vinculação do ato de Manning a um ato laureado de paz é instigante. Qual é a relação que o delator (ou, no termo mais empregado em inglês, whistle-blower) tem com o estabelecimento de estratégias de segurança não só de um Estado, mas da própria segurança internacional? Arrisco pensar que um homem como Manning fez mais pela segurança internacional que gerações de diplomatas sentados no Conselho de segurança das Nações Unidas. E isso se dá por um simples motivo: O Estado não deixa de ser um Leviatã, progressivamente acorrentado, tanto em seu âmbito interno quanto externo. Internamente o Estado tem sido paulatinamente dominado pelo constitucionalismo, que luta para refrear o dano que essa estrutura abstrata pode causar àqueles a quem deveria proteger. Já no âmbito internacional, a constante fiscalização das demais nações (algumas mais atentamente fiscalizadas, outras menos), com profundo impacto nas relações políticas, econômicas e sociais traduzem a realidade em que ninguém mais é livre, ao menos no que tange a uma soberania ilimitada.

O legado de Manning – e daqueles que assumirem o risco de expor as entranhas de seus Estados – é que os cidadãos podem conhecer mais sobre seus funcionários – podendo inclusive julgá-los mais adequadamente em seus métodos naquela que é considerada a autêntica via de correção dos regimes democráticos: as eleições. Como pode um cidadão decidir conscientemente se grande parte do trabalho do seu próprio Estado lhe é mantido às escuras, às vezes sob a justificativa de ser essencial para sua própria segurança – como o caso dos segredos do regime militar brasileiro. Adicionalmente, outro fruto do ato de Bradley está na maior transparência sobre as ações dos Estados para com outros Estados. Se a comunidade internacional é bem informada, pode ver as fotos e vídeos dos abusos em realtime, pode decidir melhor sobre o investimento que quer dar em certas causas. Se, por exemplo, o povo brasileiro descobre que boa parte da ação interventiva na Líbia serviu como showroom das capacidades bélicas dos armamentos franceses poderia pressionar o governo brasileiro a não comprar os caças Rafale, que o governo de Paris tenta vender ao Brasil há anos.

Mais informação equivale a uma decisão melhor fundamentada. É o Leviatã ainda mais limitado, interna e externamente. Claro que isso envolve sacrifícios: “eles” também vão se informar, e a categoria dos “outros” é algo recorrente no debate político, sempre preenchida. Os inimigos da Nação vão estar sempre nos rodeando. Mas as democracias liberais devem assumir como padrão mínimo o máximo de garantias paras seus sujeitos, e o perigo de um adversário possível porem incerto não justifica a restrição de informações essenciais para a manutenção da própria democracia. Autocracias, Plutocracias, Teocracias, todas elas passam pelo controle exagerado de informações. Talvez Manning tenha, em seu esforço provavelmente inconsequente, iluminado a maior esperança para a renovação do pacto de legitimidade entre governos e cidadãos:  se conseguirmos vencer a alienação provocada pelo afastamento entre o povo e os assuntos públicos, essa cisão entre privado e público, talvez possamos caminhar para um futuro mais livre. Certamente é uma possibilidade mais contundente do que o otimismo que fez o mesmo comitê premiar Barack Obama por sua mensagem de esperança.  Ainda há a vantagem de que tal prêmio aumentaria a pressão para que Bradley Manning ao menos tivesse um julgamento, retirado dos calabouços misteriosos onde se encontra desde que foi preso. Mas os maiores vencedores seríamos todos nós.

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filosofia política e futebol

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