As cidades de Clarke

Um dos maiores escritores de ficção científica de seu tempo, Sir Arthur C. Clarke era, sem dúvida, um homem presciente. Em seu exercício de antevisão, imaginou várias características da sociedade do distante futuro do ano 2000.

Entre muitas maravilhas e possibilidades, como a oportunidade de trabalhar em lugares remotos com ajuda da internet, o profeta da Ficção Científica fez uma predição que é especialmente interessante para a Casa dos Comuns. Ele falou sobre como se organizariam as cidades:

Quando a hora chegar, o mundo inteiro terá sido reduzido a um ponto. E o papel tradicional da cidade como ponto de encontro dos homens perderá o sentido. Na realidade, os homens não vão mais se deslocar, mas se comunicar. Eles não viajarão a negócios, só viajarão a lazer.

Parcialmente ele está correto. De fato, nós encurtamos as distâncias ao ponto do imperceptível. É possível manter um bate-papo com pessoas de dúzias de países diferentes, sem nenhuma dificuldade. Podemos fazer, aqui mesmo no blog, um chat para discutir questões cruciais na esfera pública sem jamais por os pés numa Ágora, ou algo do gênero. Mas será que isso substitui a contento o espaço público? Será que já estamos prontos para trocar as cidades, com seus corredores de circulação e pontos de encontro pelos rincões do mundo digital?

Pensar em trocar a liberdade física pela liberdade virtual em tempos de SOPA até parece temerário, mas para mim a questão não chega nem aí. Cogitar que o espaço público pode ser facilmente emulado virtualmente é extremamente arriscado. O mais fantástico do espaço público é a total falta de controle sobre as opções políticas dos seus agentes. Um cidadão pode sair de casa para cantar na rua, protestar, ou simplesmente gritar uma poesia japonesa – sem nem saber japonês. Nós somos livres para usar o espaço público de um número de formas somente limitado por nossa criatividade. E frequentemente lutamos por um espaço público mais relevante e mais livre. Tirar o espaço público físico da equação da vida social seria retirar uma das poucas variáveis de imprevisibilidade que restam num contexto em que somos treinados para seguir tradições, assumir estigmas e desempenhar papéis (especialmente laborais) bem definidos na sociedade.

Para mim o espaço público é como uma boa rádio de música. Você pode eventualmente ouvir uma música que não gosta, mas pode às vezes ser brindado com excelentes surpresas, algumas inclusive que você não lembrava mais existir. A sua playlist de mp3, por mais particularizada e burilada que for, sempre se resumirá ao que você colocou lá, fruto das suas escolhas e possibilidades. De um lado temos a vantagem da total customização, podendo escolher nossas playlists favoritas, colocando tudo que mais gostamos, mas na rádio temos sempre a possibilidade do inesperado, e desse inesperado podemos receber e criar coisas inesperadas.

Se reconhecemos que espaços públicos são mesmo essenciais, fica a questão de se é possível emular algo do tipo na internet. Se podemos ter uma espécie de vida social pública na internet (fãs de Serial Experiments Lain, tremei). A resposta parece evidentemente positiva, num contexto em que uma miríade de redes sociais já empesteia a existência com tanto ruído que passa a retroalimentar as próprias notícias, que, por sua vez, alimentam as redes sociais, em um processo tão redundante quanto vazio. Mas será que há mesmo liberdade nas redes sociais? Quando o Twitter informa que passará a restringir posts com termos considerados proibidos pelas normais locais (recebendo elogios incômodos, inclusive), e o Brasil trata a internet como George Lucas trata Star Wars nós vemos que a informação na internet não é tão livre assim. Afinal, ela está nas mãos dos empresários que criam os serviços, e mesmo a internet em si não é pública, mas privada. Sujeita a regulações públicas sim, mas majoritariamente regulada por entes privados, sem participação pública na decisão de seus rumos.

Recentemente o criador do polêmico fórum 4Chan, moot, defendeu em várias entrevistas o papel de seu projeto na defesa do anonimato, e, com isso, a manutenção de algum lugar na vida moderna em que a pessoa possa agir com liberdade, sem responsabilidade por seus atos. Provavelmente o 4Chan, por não manter registro dos posts, seja o lugar mais livre da internet. Será o único local que se assemelhe ao espaço democrático das ruas?

Será que Arthur C. Clarke acertará também esta previsão, e perderemos nossos espaços públicos?

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2 responses to “As cidades de Clarke”

  1. Bruna Pretzel says :

    Eu concordo com isto: hoje em dia não tem como imaginar o espaço público sem internet, mas isso é diferente de pensar que o espaço público deva se resumir a ela. Não queremos (imagino eu) uma distopia da “solidão exercida coletivamente”, como diz o André Dahmer nos ótimos “Quadrinhos dos anos 10”. Mas não consigo concordar com quem ainda acha que internet é só isso, que não é uma extensão do espaço público aonde se aplicam as mesmas garantias que a praça pública.

    A nota me lembrou também do motivo que levou Italo Calvino a escrever “As cidades invisíveis”: a procura de um símbolo verdadeiramente universal. Antes de ser um amontoado de casas, comércios e ruas, a cidade é o que nos une como humanos; não existe sociedade complexa sem cidade. Se a internet nos une, ela também é uma cidade.

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