Archive | March 2012

Arte de Segunda (19/03)

A Arte de Segunda dessa semana sai numa terça só para reafirmar nossos propósitos subversivos – na verdade o culpado do atraso sou eu, mas por favor ignorem. Bem, hoje trazemos na galeria uma intervenção diferente: a cidade de Jaujac resolveu promover seu circuito de trilhas naturais de uma forma bastante inventiva. Desenhando um pedaço de […]

Mercado, seu feio!

Opa, não, Mercado errado

Opa, não, Mercado errado

Um dos temas mais tradicionais na esfera pública de debate – que também se espalha no assunto de infinitas mesas de bar progressistas – é o  sazonal achaque ao Mercado. Não o apresentado acima (culpa do estagiário), mas outro. Esta semana o periódico New York Times (terceiro veículo de informação mais lido pela inteligentsia global, seguindo de perto o duo Casa dos Comuns e Meia Hora) deu início a um interessante debate. A pergunta feita a vários participantes foi a seguinte: existe lugar para a moralidade em Wall Street? Após tanta discussão sobre crise financeira, os ganhos vultuosos de CEOs irresponsáveis e fortunas que discretamente deslocam-se das reservas públicas para planos de reestruturação privada um mote continuamente repetido foi: os mercados agiram de forma irresponsável, motivados pelo lucro selvagem. Colocaram em risco não só seus negócios, mas a integridade do próprio sistema financeiro internacional. Afinal, o que passava pelas cabeças daquelas pessoas, enfurnadas em seus escritórios com uma vista espetacular, uma mobília mais cara que o investimento de saúde de cidades inteiras e ternos Armani mais difíceis de se conseguir do que alguém no ramo que não tenha um Armani. Read More…

Quando a reafirmação de preconceitos se torna (ou não) subversão

A controvérsia recente sobre a ofensa dirigida ao músico Raphael Lopes pelo humorista Felipe Hamashi, no show “Proibidão” em São Paulo, merece uma pequena reflexão sobre como, mesmo após vinte e poucos anos de criminalização do racismo (por força da própria Constituição), a questão continua sendo tratada aos trancos e barrancos no Brasil.

Um parêntese necessário: antes que digam que o termo “ofensa” é muito parcial para o caso, que na verdade o que ocorreu foi uma piada, chamo a atenção para o nome do show: Proibidão. Os comediantes sabem que o conteúdo do show é feito de ofensas. Tanto que pediram que o público assinasse um termo com a promessa de que não se sentiria ofendido com nenhuma das piadas (embora, como apontado neste texto, seja um pouco estranho afirmar que você não se ofenderá com algo que ainda não ouviu). Fim do parêntese.

"Se você acha que ser comparado com o King Kong é ofensivo, problema seu."

Num mundo ideal, eu não estaria escrevendo mais um texto para adicionar à enorme pilha do que já foi produzido no Brasil sobre o problema do racismo. Portanto, numa tentativa de variar um pouco a abordagem da questão, chamo a atenção para o que está sendo dito lá fora: com a atenção do resto do mundo cada vez mais voltada para nós, é de se esperar que apareçam reportagens ressaltando não só as vitórias, mas também os desafios do país. Se uma revista como a Economist já falou da mal-agourada eleição para prefeito de São Paulo deste ano, é natural que também tenha se preocupado com um problema que nasceu bem antes de Piratininga se tornar megalópole.

Numa comparação interessante com a história dos Estados Unidos, este artigo da Economist sobre o racismo no Brasil afirma que os negros aqui são “neither separate nor equal“. Não é novidade que nosso racismo assume formas diferentes daquelas que caracterizam a barreira racial nos EUA. Mas, como bem ressaltado pelo artigo, já não podemos continuar a repetir o mito de que somos uma espécie de democracia racial e de que os negros só são discriminados por serem pobres. Até porque todos sabemos que pessoas como o músico que tocou no Proibidão não são exatamente pobres – pelo menos para os padrões brasileiros.

A eterna pergunta que se coloca é: qual o melhor jeito de remediar essa situação e de construir para o futuro uma sociedade em que haja verdadeira igualdade de oportunidades? Sabemos que as políticas de ação afirmativa são controversas: há estudiosos que apontam como desvantagem dessas políticas o fato de “criarem” categorias nas quais os brasileiros não estão acostumados a serem encaixados. Segundo esse argumento, não costumamos pensar em grupos de negros e brancos dividindo a sociedade brasileira, até porque há um grau considerável de miscigenação. Isso seria um ponto positivo da nossa sociedade, que seria minado pela necessária classificação das pessoas através de ações afirmativas.

Por outro lado, é difícil pensar como a manutenção do jeitinho brasileiro de lidar com as diferenças raciais teria o poder de mudar algo. O caso do Proibidão é um exemplo interessante porque mostra um tipo de raciocínio curioso (para não dizer tolo): a ideia de que fazer piadas ofensivas, que repetem preconceitos antigos mas ainda vivos, é de algum modo subversivo ou representa uma quebra de tabus, porque aparentemente a turma do politicamente correto criou um tabu de que não se pode chamar pessoas de macacos. (Colegas, não sei o que acontece na realidade paralela de vocês, mas na minha os tabus são coisas aceitas sem motivo, sem justificação. Ganha um chocolate quem me convencer de que não existe motivo para uma pessoa se ofender quando alguém a chama de macaco, ser de inteligência inferior – a não ser que essa pessoa seja ativista pelos direitos dos animais, o que, como se sabe, está longe de ser a maioria da população.)

Vamos refletir um pouco sobre isso para ver se entendemos: repetir um preconceito que a maioria das pessoas sabe que existe (só não quer assumir) e fingir que não há nenhum problema nisso é visto como subversivo. Se eu fosse um ser extraterrestre, caísse no Brasil e ouvisse isso de um humorista, acharia que existe uma ditadura negra no país. Afinal, pela ótica dos comediantes, parece que as pessoas não podem simplesmente negar que racismo seja um problema, que já são presas, caladas e queimadas na fogueira. Vale registrar que há quem critique seriamente o modo como o racismo é tratado no sistema penal brasileiro, desde o tipo da pena (reclusão, a mais severa das penas privativas de liberdade) até o fato de ser crime inafiançável (ou seja, se tiver sido decretada prisão preventiva – a que ocorre antes da condenação apenas para garantir o andamento do processo – não se pode evitá-la mediante o pagamento de fiança). Mas parece haver uma certa rebeldia sem cabimento na atitude de afirmar aquilo que todo mundo já sabe – que negros são vistos como inferiores – apenas para mostrar que você é cool e fingir que isso não é uma questão preocupante, para não entrar na onda cafona da turma do politicamente correto. Quando muito, esse tipo de piada-ofensa apenas faz com que as pessoas pensem: “Nossa, como ele é racista. Como ele é mau. Ainda bem que eu não sou assim.” Dá para ver nisso alguma grande quebra de tabus em relação ao que a maioria dos brasileiros já pensa?

Isso não quer dizer, é claro, que o racismo não possa ser objeto de humor. Contudo, se a intenção do comediante é fazer as pessoas avaliarem internamente seu próprio racismo, a elaboração de piadas mais inteligentes é um imperativo. Tampouco é a intenção aqui fazer apologia da censura. Para falar a verdade, não sei em que entrelinhas do texto alguém poderia enxergar uma defesa da censura dos shows de comédia. Mas, como tem gente que se esforça bastante nesse sentido, deixo aqui a lembrança de que censura prévia é proibida pela Constituição e de que a responsabilidade criminal pelo exercício da liberdade de expressão não equivale a censura, porque logicamente não impede que a pessoa fale o que queira – já que ocorre depois de ela ter dito o que queria. O sistema penal pode obviamente ser criticado, alternativas podem ser propostas, mas não é interessante nem justo misturar os conceitos de censura e de responsabilidade a posteriori. O problema maior não é a solução jurídica para esse tipo de caso, pois ela já é razoavelmente bem estabelecida (ainda que haja pontos questionáveis como o bizarro contrato de não-ofensa mencionado acima). O ponto que deve ser ressaltado é a falta de efetividade de uma corrente do humor nacional que se afirma como um convite à reflexão, quando na verdade essa reflexão só ocorre no sentido de espelhar nossa ancestral hipocrisia.

Arte de segunda (12/03)

Nossa nota de segunda volta-se a dois jovens artistas que colorem os muros do Irã, país não deixará de ser tema de discussão pública tão cedo e que é mais conhecido pelo cinema do que pela arte de rua. Naturais de Tabriz, Icy e Sot iniciaram sua carreira profissional em 2008.

Tabriz, Irã

Tabriz, Irã

Teerã, Irã

Teerã ou São Paulo?

Tabriz, Irã

Esta é em São Paulo mesmo!

Para os curiosos, há muito mais a ser espiado e apreciado no site da dupla.

A música do todo

"Música degenerada?"

Este post foi escrito em um domingo chuvoso, e, para entrar no clima, recomenda-se que seja ouvido ao som de uma música condizente com seu espírito – até para comemorar também a mudança de planos do ECAD sobre cobrança de vídeos “embedados” (sic), que será alvo de outro post, em outra ocasião.


Um elemento de participação – e utilidade – muitas vezes insuspeita na esfera pública de debate é a música. A despeito da miríade de visões teóricas diferentes recaindo sobre sua forma e conteúdo, o senso comum pretende tratar a música como algo extremamente subjetivo, intrinsecamente sujeito à avaliação estética individual, logo, impossível de aprisionar em um conceito valorativo. A lógica do: “Gosto é igual a nariz, cada um tem um seu”. Mas há algo de importante para a coletividade. A música também é uma forma de discurso. Uma das formas de perceber essa realidade é exatamente pelas formas de tentativa de controle do discurso, no caso, da música. O que acontece quando enfrentam-se a música mais variável e improvisada, o Jazz, e o totalitarismo (discutivelmente) mais opressor do século XX?

O escritor tcheco Josef Škvorecký faleceu esta semana de câncer. Škvorecký foi um um grande campeão da resistência aos invasores (primeiro nazistas, depois soviéticos), chegando a montar, em exílio no Canadá, uma editora para publicar livros banidos pelo regime de Moscou. A 68 Publishers foi durante muito tempo o canal de expressão de nomes como Vaclav Havel e Milan Kundera. Como legado Škvorecký deixa uma obra variada (os autores tchecos parecem sustentar a tese de que quanto mais adversidades maior a criatividade, apesar que se fosse por isso a Polônia deveria ser a maior fábrica de prêmios Nobel do planeta), e para nós da Casa dos Comuns deixa um relato interessantíssimo. Diz Škvorecký que durante a ocupação nazista à Checoslováquia o Reich tentou controlar até o Jazz!

  1. Pieces in foxtrot rhythm (so-called swing) are not to exceed 20% of the repertoires of light orchestras and dance bands;
  2. in this so-called jazz type repertoire, preference is to be given to compositions in a major key and to lyrics expressing joy in life rather than Jewishly gloomy lyrics;
  3. As to tempo, preference is also to be given to brisk compositions over slow ones so-called blues); however, the pace must not exceed a certain degree of allegro, commensurate with the Aryan sense of discipline and moderation. On no account will Negroid excesses in tempo (so-called hot jazz) or in solo performances (so-called breaks) be tolerated;
  4. so-called jazz compositions may contain at most 10% syncopation; the remainder must consist of a natural legato movement devoid of the hysterical rhythmic reverses characteristic of the barbarian races and conductive to dark instincts alien to the German people (so-called riffs);
  5. strictly prohibited is the use of instruments alien to the German spirit (so-called cowbells, flexatone, brushes, etc.) as well as all mutes which turn the noble sound of wind and brass instruments into a Jewish-Freemasonic yowl (so-called wa-wa, hat, etc.);
  6. also prohibited are so-called drum breaks longer than half a bar in four-quarter beat (except in stylized military marches);
  7. the double bass must be played solely with the bow in so-called jazz compositions;
  8. plucking of the strings is prohibited, since it is damaging to the instrument and detrimental to Aryan musicality; if a so-called pizzicato effect is absolutely desirable for the character of the composition, strict care must be taken lest the string be allowed to patter on the sordine, which is henceforth forbidden;
  9. musicians are likewise forbidden to make vocal improvisations (so-called scat);
  10. all light orchestras and dance bands are advised to restrict the use of saxophones of all keys and to substitute for them the violin-cello, the viola or possibly a suitable folk instrument.

O totalitarismo alemão tentou a todo custo encaixotar o Jazz em suas perspectivas “arianas”, bem longe de influências de “raças inferiores” como o povo judeu. É quase surreal a extensão do controle proposto, numa demonstração paradigmática de que uma sociedade totalitária esvazia qualquer possibilidade de ação criativa. O totalitarismo, extensivamente estudado no Século XX (especialmente por Hannah Arendt e seu “As origens do Totalitarismo”) é exatamente o sistema político que se torna onipresente na vida do cidadão, retirando até a possibilidade de mudança de sistema. Em vez da versatilidade, da alternância, do risco, o totalitarismo busca o método, o desempenho, a segurança. As liberdades individuais são suprimidas em prol do grande plano. O que é uma vida diante do projeto da coletividade? É sintomático que um regime calcado nessa lógica se encontre acossado pelo Jazz, música com história entrelaçada na sofrida trajetória dos negros norte-americanos, e que alcança justamente a virtuose estética com seus improvisos e harmonias de tirar o fôlego.

Quem venceu o confronto? Bem, a história está aí para renegar um dos movimentos estéticos à infâmia e exaltar o outro como representação visceral da liberdade e da pluralidade que é o agir humano. A renovação e reinvenção do Jazz é um testemunho à ideia de que a única e verdadeira música do todo não é só uma forma, mas a infinitude das possibilidades humanas.

A música como vetor de liberdade? Tema para outro post.

(Mais sobre a perseguição dos nazistas ao Jazz pode ser lido aqui, na Wikipedia mesmo. Sobre a ideia alemã de “música degenerada” é só ler aqui, também na Enciclopédia Virtual, grato a @cintia_nunes pelo link!)

Rosas, essas injustiçadas

A era de Bridget Jones está para acabar. Assim diz o blog Prospero, da Economist, que publicou na última terça-feira um artigo sobre a queda de popularidade da “chick lit” (literatura de mulherzinha, numa tradução sem rodeios) no mundo anglófono. Segundo o artigo, esse nicho dos best sellers não está exatamente morto, mas “amadureceu” e passou a abordar outras questões do universo feminino além do melhor modo de encontrar o marido ideal depois de atingir os 30 anos de idade.

Feminista, EU?

A cada ano, conforme a blogosfera feminista brasileira cresce, vejo mais pessoas protestando contra a perpetuação da imagem de mulherzinha no dia 8 de março. Perdi a conta de quantos artigos e tuítes diziam que aceitar rosas no Dia da Mulher significava colaborar para a descaracterização da data como um dia de luta feminista, pela igualdade, pelo fim da violência doméstica, pela desconstrução das expectativas sociais de beleza e comportamento que impedem que cada mulher desenvolva sua personalidade livre de discriminação. Que rosas são símbolos aparentemente inofensivos, mas na realidade perversos, pois representam um ideal de mulher frágil e delicada que, apesar disso, mostra-se traiçoeira com seus espinhos. Que receber a rosa com um sorriso significaria abraçar esse pacote injusto de expectativas sem a necessária contestação.

Seria absurdo diminuir a importância das causas feministas mencionadas acima (e aqui remeto para o ensaio de hoje do colega Wagner Artur, que já falou disso bem e exaustivamente). Mas não consigo deixar de pensar que há algo de errado num movimento feminista que orienta e praticamente ordena que as mulheres não gostem de receber flores (ou qualquer coisa relacionada ao mundo da mulherzinha) no dia 8 de março. É como se dissessem: não importa que vocês genuinamente se sintam bem dentro do padrão social! Ele é errado! Hoje não é dia de seguir o capitalismo malvado e opressor, é dia de se dedicar a uma causa maior! (Gostaria de saber se as pessoas que protestam nesse tom tomam um tempo para perguntar às interlocutoras se elas de fato se sentem oprimidas.)

Vejam: há uma diferença muito importante entre desabafos e palavras de ordem. É impossível negar que haja mulheres que se sentem limitadas pelos padrões da sociedade. Eu sou uma delas: não me preocupo tanto quanto “deveria” com roupas, crianças ou manicure. Tenho arrepios toda vez que alguém começa uma frase com “toda mulher é…”. Por isso, me identifico em parte com quem educadamente manda a galera enfiar a rosa no orifício anal – embora meus critérios de boa educação não permitam que eu diga isso em voz alta. Este Tumblr é um ótimo exemplo de como esses desabafos podem ser propagados de forma criativa e bem-humorada. Muito diverso disso, porém, é a atitude de gritar aos quatro ventos: “Não aceite os parabéns! Recuse as flores! Não elogie as mulheres, lute com elas!” É uma verdadeira cruzada contra o mundo da mulherzinha. Só que com um detalhe que mina todas as boas intenções: ela se volta contra um estereótipo específico e contra as pobres pessoas que, por um motivo ou outro (até mesmo por decisão própria, vejam que coisa!), o seguem, em vez de questionar o problema de fundo, que é a exigência de que as detentoras de uma vagina ajam de um modo predeterminado. Em outras palavras, o mundo não seria muito melhor se as lojas do shopping só distribuíssem cópias d’O Segundo Sexo no Dia da Mulher. Combater as expectativas sociais inserindo outro conjunto de expectativas que parece mais “legítimo”? Não parece muito promissor. Garanto que, desse jeito, as mulheres que gostam de receber flores não serão convencidas de que o feminismo também as interessa, o que é uma pena.

O maior problema da cruzada contra a mulherzinha foi brilhantemente apontado por Stephanie Carvin, do blog Duck of Minerva, e por Nathalie Reed, do Skepchick. Essa estratégia do movimento feminista apenas colabora para que as coisas de mulherzinha sejam consideradas… Bem, coisas de mulherzinha. Com toda a carga pejorativa que essa expressão possui – o que é um enorme problema e talvez seja o início de todos os problemas. Em vez de se preocupar com a apresentação de alternativas aos padrões sociais e com a celebração da diversidade que o rótulo “mulher” abarca, ocupa-se com a negação das rosas, dos cupcakes, da maquiagem e da lipoaspiração como interesses inferiores. Na falta da apresentação de alternativas, não se faz nada além de reforçar a ideia de que esses interesses são inerentemente femininos num mau sentido – aquele sentido de feminino que não se pode almejar, sob pena de seguir as exigências da sociedade. E acho que não preciso explicar por que ligar o adjetivo “feminino” a uma carga negativa é prejudicial: além de reforçar a discriminação contra as próprias mulheres, traz a desvantagem adicional de alimentar a insuportável paranoia dos homens a respeito de qualquer demonstração de “viadagem”.

É inegável que os símbolos e as palavras trazem consigo significados históricos que não escolhemos e que muitas vezes queremos rechaçar. Mas a solução está muito longe de destruir os próprios símbolos; antes, é preciso pensar no sentido que queremos que eles tenham. (Sobre isso, este discurso proferido por Jaclyn Friedman na SlutWalk de Boston é de leitura obrigatória.) Em V de Vingança, uma das obras de arte mais queridinhas e mal-interpretadas da cultura pop, as rosas são o símbolo maior da liberdade. Uma mulher que recebe parabéns e flores no dia 8 de março não está de modo algum impedida de lutar incessantemente pela equiparação salarial e pela sua autodeterminação sexual – mas pode enxergar esse gesto de carinho, dependendo de quem o exerce, como um ato de reconhecimento da sua humanidade. E não existe objetivo maior para o feminismo do que esse.

O Paradoxo Liberal da Loira do Tchan

a morena também pode entrar

Neste dia comemorativo de todas as mulheres, há inúmeros posts interessantes na internet ressaltando diversos pontos de reflexão sobre, afinal, o quê precisamos ter como foco entre tantos clichês consumistas. Essas datas especiais têm em si um ranço de estratégia de mercado, um dia escolhido arbitrariamente para aumentar vendas que é tomado como algo sacrossanto por almas ingênuas. Não só a origem pan-capitalista não poderia estar mais errada (é uma invenção quasi-comunista, veja só você) como os críticos de um argumento só às vezes perdem a oportunidade de aproveitar o ensejo e fazer uma reflexão: afinal, o que há para, em tese, ser comemorado? Se conseguimos investir 15 minutos numa reflexão interessante como esta ou esta, talvez todo o escarcéu tenha sua justificativa.

Um dos pontos argumentativos mais importantes na discussão sobre os direitos das mulheres é a liberdade. Qual a liberdade que uma mulher pode, e, em outro nível, deve ter. Parece uma consideração até intuitiva de que a mulher deve ser livre da forma mais ampla possível, mas na prática a questão fica um pouco mais difícil de resolver. Se liberdade envolve a faculdade para agir de qualquer forma, como tratar casos normalmente considerados ofensivos, como o dos usos da liberdade que importam em, digamos, uma restrição de liberdade ou ofensa à dignidade? A este problema darei o título de “Paradoxo Liberal da Loira do Tchan”.

Se você viveu no Brasil nos anos 90 certamente conhece o fenômeno pop-cultural que foi a banda É o Tchan (antes Gera Samba, Casa dos Comuns também é cultura). Trata-se de um fenômeno do pagode, que é até hoje culpado por muita gente por ter começado um movimento de ultrassexualização das letras musicais, das danças, e mesmo de sexualização das crianças. E, com seus micro-shorts e suas danças na boquinha da garrafa as serelepes dançarinas foram escolhidas também como símbolo de um fenômeno complexo e antigo: a objetificação da mulher. A mulher, naqueles trajes e atos, seria vista somente como um objeto sexual para prazer masculino, sem o respeito à sua dignidade feminina. É uma questão de perpetuar uma situação de injustiça e preconceito patente: por qual motivo deveria uma mulher se oferecer como prenda afrodisíaca para um macho? Afinal, a mulher deve ser livre para fazer qualquer coisa, ou a liberdade a impede de fazer certas coisas?

O cerne do argumento se encontra entre as inúmeras definições possíveis de liberdade. Por mais que Cecília Meireles diga que não há ninguém que explique (e, ao mesmo tempo, que não há ninguém que não entenda), muita gente já tentou, e percorreu caminhos tortuosos para tentar fazer esse fenômeno ser melhor compreendido – e, assim, mais fácil de se lidar. Uma dessas construções teóricas é aquela proposta por Isaiah Berlin, que divide liberdade em dois tipos: negativa e positiva. Não é uma questão de liberdade “boa” ou “ruim”, mas só a forma na qual ela se manifesta. A liberdade negativa é aquela que se apresenta diante da inexistência de qualquer obstáculo. Por exemplo: se ninguém me impedir, posso tranquilamente atravessar a rua. Ou, digamos, me expressar livremente. A liberdade negativa é a liberdade da interferência. Já a liberdade positiva é um pouco diferente. Trata-se da liberdade de alcançar o que eu realmente quero. É um conceito muito mais difícil de perceber. Ele vem da ideia de Rousseau (descrita no Capítulo VII d’O Contrato Social) de que é para o melhor interesse do cidadão que ele se conforme ao interesse da coletividade, concretizado na chamada Vontade Geral:

Portanto, para que não seja uma fórmula vazia, o pacto social implica taticamente este compromisso, único capaz de dar força aos demais: o de que quem se recusar a obedecer à vontade geral será forçado a fazê-lo por todo o corpo, o que significa que será forçado a ser livre. Porque é essa a condição que, dando cada cidadão à pátria, garante-o contra toda dependência pessoal; condição essa que constitui o engenho e o funcionamento da máquina política, a única que legitima os compromissos civis, os quais, sem ela, seriam absurdos, tirânicos e sujeitos aos mais enormes abusos.

(J. J. Rousseau, Contrato Social, Cap. VII, Livro I)

Há certas ocasiões em que nossos interesses imediatos parecem sabotar nossa vontade. Por exemplo, nós temos um interesse geral em nosso bem-estar e saúde. Mas há certos impulsos que podem nos inclinar na direção de certos “vícios” (é algo bem discutível, mas não é o ponto deste post), como, por exemplo, o tabagismo. Por mais que eu queira muito fumar, ao fazê-lo estou agindo contra minha própria vontade original de proteger minha constituição física. Quando o Estado age de forma a restringir o fumo, então, ele o faz em nome da minha liberdade positiva. Ele me dá uma força para que eu consiga resistir às minhas vontades imediatas em prol de interesses maiores.

Mas o leitor já deve imaginar: essa concepção de liberdade “assistida” é complicada. É o que Isaiah Berlin chama de Paternalismo. O Estado acaba assumindo um papel de tutor das reais vontades do cidadão. É essa a motivação que faz surgirem várias leis que pautam o comportamento humano, impedindo desde a proteção do consumo de certas substâncias até a eutanásia. Um cidadão em melhores condições psicológicas certamente escolheria outra opção, logo, é preciso proteger-nos de nossas escolhas. Porém, quais são os interesses desse tutor? Se até o conceito de saúde é subjetivo e ideológico (homossexualismo era considerado doença até recentemente), qual deve ser o relacionamento entre essa ideologia pública e a autonomia privada?

Diante dessas perspectivas divergentes de liberdade surge um dilema: como podemos concatenar a liberdade para agir e a liberdade para sermos senhores dos nossos interesses? No exemplo emblemático das jovens moças nostalgicamente relembradas, aplica-se a mesma dúvida: Uma mulher deve ser livre para fazer o que quiser do seu corpo, ou, ao assumir certo padrão de comportamento, ela afeta sua própria liberdade, massacrando sua dignidade?

Essa é uma discussão eterna no movimento feminista. Um argumento feminista possível poderia dizer que a emancipação das mulheres envolve a disponibilização de várias possibilidades de vida. Ser impedida de dançar seria, então, uma ofensa de sua liberdade negativa, assim como qualquer restrição profissional, de locomoção, de expressão, etc. Por outro lado, um outro argumento feminista possível é o que diz que uma dançarina que instrumentaliza a sua feminilidade, se oferecendo como símbolo sexual, o faz de forma a desprezar a multitude de outras possibilidades de vida: existe uma vida feminina além do ser sexual. Da mesma forma que existe uma vida feminina antes de ser mãe, dona de casa, etc. Uma mulher, ao se prestar a tal papel, estaria sendo ofendida em sua liberdade positiva: por mais que esteja fazendo aquilo voluntariamente, seria uma voluntariedade viciada. Essa forma de sujeição seria um vestígio de um histórico misógino enraizado em nossa cultura.

Trata-se de um dilema tão profundo quanto interessante. Que passa muito longe de certas visões simplistas como a da filósofa Talyta Carvalho, que publicou artigo hoje na Folha de São Paulo declarando: “Não devemos nada ao feminismo”. O mote da crítica é: o feminismo impõe uma visão singular de que a mulher só pode ser feliz saindo de casa, e assumindo um papel diferente do tradicional. Assim, em seu desenvolvimento histórico, o feminismo não trouxe consigo a prometida quebra de correntes e liberação feminina, mas aprisionamento pelo estrangulamento de possibilidades. Para Carvalho o diagnóstico é simples: o feminismo impôs um modelo de vida à mulher, encaixotando-a numa definição estanque meramente reacionária à definição tradicional que antes imperava. E mais: o feminismo tornou-se uma espécie de Santo Graal, incriticável, sob pena de que a pessoa que critica ser taxada de inimiga não só da bandeira filosófico-política do feminismo, mas também das mulheres como um todo.

A filósofa apresenta uma crítica curta mas direta ao que chamamos de liberdade negativa, e essa possibilidade de controlar as pretensões individuais sob a égide da proteção do próprio indivíduo. E é uma crítica válida (mesmo que talvez seja direcionada a uma minoria do discurso feminista atual). Mas erra de uma forma muito básica: presumir a existência de um só feminismo. Há vários feminismos, de toda sorte de tendência e objetivo, todos lutando sob o mesmo guarda-chuva teórico: a defesa dos interesses da mulher. E essa proposta mais geral, a de defender os interesses da mulher, é tão subjetiva e ampla que se torna praticamente inquestionável para qualquer pessoa que acredite em igualdade entre os gêneros. Afinal, afirmar que as mulheres não tem direitos é um discurso anacrônico e incompatível com a percepção contemporânea de Direitos Humanos. Se a filósofa de fato buscasse questionar os direitos femininos no geral creio que ela estaria sim incorrendo no erro que ela diz ser acusada injustamente, de atacar as mulheres. Mas sua crítica é a um tipo de feminismo específico, mesmo que disso ela não se dê conta. Como uma pessoa que não só tem direitos civis iguais a um homem, e tem a possibilidade de estudar e buscar uma profissão do seu agrado, provavelmente a filósofa deve muito mais ao feminismo do que quer admitir.

alguém consegue explicar a temática safari?

E, nesse dia de reflexão sobre a posição da mulher na sociedade, voltamos ao nosso paradoxo proposto: uma mulher que instrumentaliza seu corpo, o faz em prol ou à revelia de sua liberdade? Uma vertente vai argumentar o segundo caso, repetindo os argumentos que já lancei, dizendo que ao fazê-lo a mulher estará se reduzindo a um padrão de dominação sexista. Mas esse mesmo argumento ignora a autonomia da própria mulher em decidir seu destino. Presumir que toda mulher assume esse tipo de emprego por alguma forma de constrangimento é sim restringir as opções que a mulher tem em sua vida. Se uma mulher quiser dançar, e considerar nisso um ideal de vida boa, sob qual fundamento isso será negado? Dívida histórica de gênero? Afirmação de um preconceito? Uma experiência individual precisa ser instrumentalizada para servir de exemplo à sociedade? Se uma pessoa sequer for impedida de seguir sua vontade para que não se reforce um estereótipo, não estaríamos usando essa pessoa como meio, não fim – inclusive contrariando Kant?

Deve-se fazer a ressalva: isso não impede o fato de que é imperativo que as mulheres (e não só elas, todas as pessoas) tenham acesso ao maior número de opções de vida possível. Escolher dançar, ou a prostituição, ou qualquer outro trabalho julgado “inadequado” por um lado ou outro da questão, deve ser uma escolha. Somente livre da verdadeira opressão da contingência podemos assumir livremente nosso destino. E, diante da liberdade, existe algum valor mais importante que a autonomia humana?

(kudos para a ajuda e discussão da minha colega Bruna Pretzel)

Bourdieu e a formação da opinião pública

O site da edição espanhola do jornal Le Monde Diplomatique publicou recentemente um texto inédito do polêmico sociólogo francês Pierre Bourdieu. No texto, integrante de um curso sobre Teoria do Estado apresentado junto ao Collège de France em 1990, o pensador discute sobre o processo de formação da opinião pública.

Segundo o autor, presume-se tacitamente que a opinião pública seja uma espécie de opinião geral. Como um consenso estabelecido entre uma comunidade. Mas, na realidade a chamada “opinião pública” consiste numa opinião restrita somente aos que podem ter opinião, que possuem dignidade ou instrução para tanto. A opinião pública seria, na verdade a opinião dos ilustres, das pessoas que importam.

A opinião pública seria, então, uma forma de discurso de autoridade. Esse discurso pode ser elaborado por meio de uma comissão de especialistas, figuras públicas das mais variadas, que, em sua diversidade, produzem um discurso resultante com ares de consenso, e impressão de legitimidade. Legitimidade, inclusive, que também pode ser checada por outro dispositivo: as pesquisas. As pesquisas populares funcionam para tornar objetivo algo que é profundamente subjetivo na essência: a opinião. Muitas vezes – talvez na maioria das vezes – os entrevistados não tinham sequer ideia formada sobre o tema questionado. Criam uma opinião somente para externá-la. Isso é mesmo uma opinião? E, quando chocam-se as opiniões das pesquisas e a tal opinião pública presumida? Chamam-se os especialistas para iluminar e direcionar a sociedade.

Bourdieu ainda fala da importância da afirmação do discurso “letrado” como criador do discurso hegemônico, aquele ao qual o cidadão mais simples se reporta como modelo de verdade. Os jargões e toda espécie de hermetismo de linguagem funcionam para isolar o discurso, mantendo-o somente entre os iniciados, ferindo sua transparência e alcance. E a proposta inicial de discussão acaba tomando ares teatrais, de um espetáculo de comédia bufa.

O francês insiste: a ritualização domina a esfera pública de debate, com a invenção de opiniões supostamente públicas forjadas para atender a interesses particulares. Há uma dificuldade tão grande de se chegar a uma verdade que todos já presumem que há uma opção natural pela mentira e pela forja de discursos. Será este o caso? O debate público é tão viciado assim?

Creio que talvez Bourdieu tenha identificado ao menos um problema corretamente: muitas vezes existe sim uma presunção de verdades coletivas, como se fosse possível captar uma “Vontade Geral”, que, a rigor, não passa de uma abstração. Nem mesmos os modos mais objetivos de detecção da opinião pública como pesquisas ou mesmo o voto, são suscetíveis a desvios e campanhas destinadas a inflacionar artificialmente certas posições, em uma espécie de adesão passageira.

Mas talvez o sociólogo tenha subestimado o poder da tecnologia em difundir o conhecimento numa velocidade maior do que as formas tradicionais de controle. Blogs como este existem às centenas, somente no Brasil, dedicados a oferecer novos pontos de vista sobre questões de ordem pública. O controle monopolizador da verdade está fragmentado, e mesmo as maiores concentradoras – as grandes empresas de televisão, rádio e jornais – passam por intensa crítica e escrutínio diuturno.

Talvez a perspectiva tenebrosa de Bourdieu possua em si uma boa aplicação: se todos presumirmos que todo discurso é tendencioso e possivelmente falso, devemos, em vez de abdicar da possibilidade de debate, abraçá-lo integralmente, adotando-o junto com sua ferramenta essencial: o senso crítico. Precisamos discutir mais, e questionar sempre. Sem negar o espaço a quem tem algo a contribuir. Por isso não acredite fielmente neste blog. Leia a opinião de Bordieu no original e discuta conosco: ainda há espaço para uma ideia de opinião pública na atualidade?

Beneficiando Santorum: o papel da religião na política

Para quem anda se entretendo com os primeiros atos da competição pela Presidência dos Estados Unidos, a menção do nome Rick Santorum não deve gerar reações moderadas: ou se detesta ou se louva. Não roubarei a função do Google e dispensarei maiores apresentações deste político conservador, cujo sobrenome foi transformado em neologismo pelo ativista Dan Savage e definido como “a mistura espumosa de lubrificante e fezes que às vezes é o subproduto do sexo anal”, em resposta à posição discriminatória do republicano a respeito das relações homossexuais.

Por concorrer à nomeação do Partido Republicano para as eleições deste ano, Santorum tem recebido grande atenção da mídia em suas declarações. Uma delas, bastante comentada no fim do mês passado por jornais e revistas afora, tem a ver com o papel da religião no espaço público. Santorum afirmou que, ao assistir a um discurso proferido por John Kennedy em 1960 a respeito da separação entre Estado e religião, se sentiu enojado por entender que Kennedy gostaria que pessoas religiosas fossem impedidas de se manifestarem na esfera pública ou de ocuparem cargos públicos. Nessa linha de raciocínio, o republicano concluiu que não acredita na separação absoluta entre Igreja e Estado, supondo que essa separação restringiria seu direito de atuar politicamente e de ser ao mesmo tempo católico.

Para não deixar dúvidas: essa é uma suposição equivocada. Como bem apontado pelo blog Democracy in America (The Economist), Santorum interpretou erroneamente o discurso de Kennedy, que apenas argumentava a favor da separação Estado-Igreja como garantia – e não restrição – do pluralismo religioso. Acho que não preciso fazer mais do que citá-lo diretamente para deixar esse ponto fora de discussão:

I believe in an America where religious intolerance will someday end, where all men and all churches are treated as equals, where every man has the same right to attend or not to attend the church of his choice, where there is no Catholic vote, no anti-Catholic vote, no bloc voting of any kind, and where Catholics, Protestants, and Jews, at both the lay and the pastoral levels, will refrain from those attitudes of disdain and division which have so often marred their works in the past, and promote instead the American ideal of brotherhood.

Muito bem: podemos concluir que as palavras de Kennedy não se tornaram obsoletas (pelo menos como ideais) e que Santorum é, ironicamente, um adepto da interpretação promíscua. Mas, como este é um blog que não se satisfaz com respostas fáceis, a nota não termina por aqui.

E se ignorássemos o fato de que Rick Santorum vive numa realidade paralela e lhe déssemos o benefício da dúvida em relação aos papel dos discursos religiosos na esfera pública? Não há um fundo de razão em dizer que as pautas religiosas, como as de qualquer associação civil, também fazem parte da política democrática? É a defesa empregada por algumas versões brasileiras de Santorum contra as críticas que recebem por seu conservadorismo.

Afinal, qual é a função desse crucifixo?

Quando se tenta lidar com essa questão na esfera pública brasileira, aparece com frequência um problema do qual já tratei quando escrevi sobre aborto aqui. Temos, de um lado, pessoas que acreditam que garantir para uns o direito de não ser discriminado (especialmente pela orientação sexual) significa automaticamente uma restrição à liberdade de crença dos outros. De outro lado, há os que se autoproclamam defensores do Estado laico e que enxergam qualquer tentativa das organizações religiosas de darem sua opinião em questões políticas – aborto, permissão do uso terapêutico de células-tronco, educação sexual que vá além do estereótipo papai-e-mamãe-pela-procriação – como um atentado à neutralidade estatal em questões confessionais. Essa falta de pressupostos democráticos comuns para ambos os grupos transforma o debate na pior versão da luta de classes (aquela da 4ª série B contra a 5ª série C).

Em outras palavras, não se trata de impedir que o conservadorismo religioso se manifeste democraticamente. Certas lideranças religiosas estão certas em argumentar que um Estado laico é diferente de um Estado ateu, se entendermos “Estado ateu” como aquele que não tolera a manifestação pública (ou até mesmo privada) de quaisquer crenças diferentes do ateísmo. Porém, o limite de qualquer discurso proferido no espaço público, seja ele católico, evangélico, ateu ou vegetariano, é o respeito aos direitos daqueles que não compartilham os mesmos dogmas.

Para que a convivência seja possível e o Estado brasileiro não se divida entre a Teocracia das Bananas e a República Popular do Ateísmo Canarinho, ainda é preciso que todos aceitemos alguns dogmas mínimos, alguns denominadores comuns. O mais importante deles, no que tange à liberdade de crença, é justamente o do Estado laico como descrito por Kennedy: nas decisões políticas, nenhuma crença deverá ser privilegiada sobre as outras nem prejudicar o exercício de outras, ainda que todas tenham direito a voz. Falando mais concretamente: se os líderes evangélicos, por exemplo, consideram correto defender uma família que só exista juridicamente para fins de multiplicação da espécie humana, podem eleger-se para o Congresso a partir desse tipo de “promessa”. Só terão que explicar aos eleitores, quando se tornarem parlamentares, que a propaganda foi enganosa, porque esse tipo de restrição à liberdade conjugal não encontra fundamento na Constituição brasileira, já que esta institui um Estado pluralista. É simples assim.

Como alguém que acredita que o dogma do Estado laico é o que melhor atende aos interesses de todos, penso que os defensores brasileiros desse dogma ainda têm muito a refletir sobre as próprias estratégias de debate antes de atirar para todos os lados quando ouvem alguma menção de influência da religião sobre a política. A grande popularidade das tendências intolerantes de certos líderes religiosos brasileiros só nos mostra que não podemos considerar como obviedades o dever de respeito às crenças alheias e a neutralidade (que não significa repressão) do Estado nessa questão. Se acreditamos na política democrática, o mínimo a ser feito é usar o máximo do poder de persuasão, embora o outro lado muitas vezes não mostre abertura alguma ao diálogo. Mas combater intolerância com opiniões petrificadas e acusações gratuitas, além de improdutivo, apenas gera reações mais rígidas.

Agradeço ao Jefferson Nascimento (@jnascim) pela ideia desta nota e indico a leitura desta monografia sobre o direito como religião civil, de Rafael Prince (@rafaelprince), que também me inspirou a escrever a nota.

Arte de Segunda (05/03)

Diferentemente do nosso padrão de intervenções artísticas no espaço público hoje a Casa dos Comuns traz um pouco do trabalho de John Clang, com uma série de fotos rasgadas de locais públicos. Clang faz uma demonstração interessante de como o espaço público, como constante, é local de diversidade e possibilidade. Mais detalhes sobre o seu trabalho fantástico pode ser acessado aqui.