Rosas, essas injustiçadas

A era de Bridget Jones está para acabar. Assim diz o blog Prospero, da Economist, que publicou na última terça-feira um artigo sobre a queda de popularidade da “chick lit” (literatura de mulherzinha, numa tradução sem rodeios) no mundo anglófono. Segundo o artigo, esse nicho dos best sellers não está exatamente morto, mas “amadureceu” e passou a abordar outras questões do universo feminino além do melhor modo de encontrar o marido ideal depois de atingir os 30 anos de idade.

Feminista, EU?

A cada ano, conforme a blogosfera feminista brasileira cresce, vejo mais pessoas protestando contra a perpetuação da imagem de mulherzinha no dia 8 de março. Perdi a conta de quantos artigos e tuítes diziam que aceitar rosas no Dia da Mulher significava colaborar para a descaracterização da data como um dia de luta feminista, pela igualdade, pelo fim da violência doméstica, pela desconstrução das expectativas sociais de beleza e comportamento que impedem que cada mulher desenvolva sua personalidade livre de discriminação. Que rosas são símbolos aparentemente inofensivos, mas na realidade perversos, pois representam um ideal de mulher frágil e delicada que, apesar disso, mostra-se traiçoeira com seus espinhos. Que receber a rosa com um sorriso significaria abraçar esse pacote injusto de expectativas sem a necessária contestação.

Seria absurdo diminuir a importância das causas feministas mencionadas acima (e aqui remeto para o ensaio de hoje do colega Wagner Artur, que já falou disso bem e exaustivamente). Mas não consigo deixar de pensar que há algo de errado num movimento feminista que orienta e praticamente ordena que as mulheres não gostem de receber flores (ou qualquer coisa relacionada ao mundo da mulherzinha) no dia 8 de março. É como se dissessem: não importa que vocês genuinamente se sintam bem dentro do padrão social! Ele é errado! Hoje não é dia de seguir o capitalismo malvado e opressor, é dia de se dedicar a uma causa maior! (Gostaria de saber se as pessoas que protestam nesse tom tomam um tempo para perguntar às interlocutoras se elas de fato se sentem oprimidas.)

Vejam: há uma diferença muito importante entre desabafos e palavras de ordem. É impossível negar que haja mulheres que se sentem limitadas pelos padrões da sociedade. Eu sou uma delas: não me preocupo tanto quanto “deveria” com roupas, crianças ou manicure. Tenho arrepios toda vez que alguém começa uma frase com “toda mulher é…”. Por isso, me identifico em parte com quem educadamente manda a galera enfiar a rosa no orifício anal – embora meus critérios de boa educação não permitam que eu diga isso em voz alta. Este Tumblr é um ótimo exemplo de como esses desabafos podem ser propagados de forma criativa e bem-humorada. Muito diverso disso, porém, é a atitude de gritar aos quatro ventos: “Não aceite os parabéns! Recuse as flores! Não elogie as mulheres, lute com elas!” É uma verdadeira cruzada contra o mundo da mulherzinha. Só que com um detalhe que mina todas as boas intenções: ela se volta contra um estereótipo específico e contra as pobres pessoas que, por um motivo ou outro (até mesmo por decisão própria, vejam que coisa!), o seguem, em vez de questionar o problema de fundo, que é a exigência de que as detentoras de uma vagina ajam de um modo predeterminado. Em outras palavras, o mundo não seria muito melhor se as lojas do shopping só distribuíssem cópias d’O Segundo Sexo no Dia da Mulher. Combater as expectativas sociais inserindo outro conjunto de expectativas que parece mais “legítimo”? Não parece muito promissor. Garanto que, desse jeito, as mulheres que gostam de receber flores não serão convencidas de que o feminismo também as interessa, o que é uma pena.

O maior problema da cruzada contra a mulherzinha foi brilhantemente apontado por Stephanie Carvin, do blog Duck of Minerva, e por Nathalie Reed, do Skepchick. Essa estratégia do movimento feminista apenas colabora para que as coisas de mulherzinha sejam consideradas… Bem, coisas de mulherzinha. Com toda a carga pejorativa que essa expressão possui – o que é um enorme problema e talvez seja o início de todos os problemas. Em vez de se preocupar com a apresentação de alternativas aos padrões sociais e com a celebração da diversidade que o rótulo “mulher” abarca, ocupa-se com a negação das rosas, dos cupcakes, da maquiagem e da lipoaspiração como interesses inferiores. Na falta da apresentação de alternativas, não se faz nada além de reforçar a ideia de que esses interesses são inerentemente femininos num mau sentido – aquele sentido de feminino que não se pode almejar, sob pena de seguir as exigências da sociedade. E acho que não preciso explicar por que ligar o adjetivo “feminino” a uma carga negativa é prejudicial: além de reforçar a discriminação contra as próprias mulheres, traz a desvantagem adicional de alimentar a insuportável paranoia dos homens a respeito de qualquer demonstração de “viadagem”.

É inegável que os símbolos e as palavras trazem consigo significados históricos que não escolhemos e que muitas vezes queremos rechaçar. Mas a solução está muito longe de destruir os próprios símbolos; antes, é preciso pensar no sentido que queremos que eles tenham. (Sobre isso, este discurso proferido por Jaclyn Friedman na SlutWalk de Boston é de leitura obrigatória.) Em V de Vingança, uma das obras de arte mais queridinhas e mal-interpretadas da cultura pop, as rosas são o símbolo maior da liberdade. Uma mulher que recebe parabéns e flores no dia 8 de março não está de modo algum impedida de lutar incessantemente pela equiparação salarial e pela sua autodeterminação sexual – mas pode enxergar esse gesto de carinho, dependendo de quem o exerce, como um ato de reconhecimento da sua humanidade. E não existe objetivo maior para o feminismo do que esse.

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About Bruna Pretzel

Arruma malas após a meia-noite e acredita em direito, política e linguagem para além dos contos de fadas.

2 responses to “Rosas, essas injustiçadas”

  1. Chalom says :

    Ótimo texto!

  2. Angélica says :

    muito bom. parabéns pelo blog.

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