A música do todo

"Música degenerada?"

Este post foi escrito em um domingo chuvoso, e, para entrar no clima, recomenda-se que seja ouvido ao som de uma música condizente com seu espírito – até para comemorar também a mudança de planos do ECAD sobre cobrança de vídeos “embedados” (sic), que será alvo de outro post, em outra ocasião.


Um elemento de participação – e utilidade – muitas vezes insuspeita na esfera pública de debate é a música. A despeito da miríade de visões teóricas diferentes recaindo sobre sua forma e conteúdo, o senso comum pretende tratar a música como algo extremamente subjetivo, intrinsecamente sujeito à avaliação estética individual, logo, impossível de aprisionar em um conceito valorativo. A lógica do: “Gosto é igual a nariz, cada um tem um seu”. Mas há algo de importante para a coletividade. A música também é uma forma de discurso. Uma das formas de perceber essa realidade é exatamente pelas formas de tentativa de controle do discurso, no caso, da música. O que acontece quando enfrentam-se a música mais variável e improvisada, o Jazz, e o totalitarismo (discutivelmente) mais opressor do século XX?

O escritor tcheco Josef Škvorecký faleceu esta semana de câncer. Škvorecký foi um um grande campeão da resistência aos invasores (primeiro nazistas, depois soviéticos), chegando a montar, em exílio no Canadá, uma editora para publicar livros banidos pelo regime de Moscou. A 68 Publishers foi durante muito tempo o canal de expressão de nomes como Vaclav Havel e Milan Kundera. Como legado Škvorecký deixa uma obra variada (os autores tchecos parecem sustentar a tese de que quanto mais adversidades maior a criatividade, apesar que se fosse por isso a Polônia deveria ser a maior fábrica de prêmios Nobel do planeta), e para nós da Casa dos Comuns deixa um relato interessantíssimo. Diz Škvorecký que durante a ocupação nazista à Checoslováquia o Reich tentou controlar até o Jazz!

  1. Pieces in foxtrot rhythm (so-called swing) are not to exceed 20% of the repertoires of light orchestras and dance bands;
  2. in this so-called jazz type repertoire, preference is to be given to compositions in a major key and to lyrics expressing joy in life rather than Jewishly gloomy lyrics;
  3. As to tempo, preference is also to be given to brisk compositions over slow ones so-called blues); however, the pace must not exceed a certain degree of allegro, commensurate with the Aryan sense of discipline and moderation. On no account will Negroid excesses in tempo (so-called hot jazz) or in solo performances (so-called breaks) be tolerated;
  4. so-called jazz compositions may contain at most 10% syncopation; the remainder must consist of a natural legato movement devoid of the hysterical rhythmic reverses characteristic of the barbarian races and conductive to dark instincts alien to the German people (so-called riffs);
  5. strictly prohibited is the use of instruments alien to the German spirit (so-called cowbells, flexatone, brushes, etc.) as well as all mutes which turn the noble sound of wind and brass instruments into a Jewish-Freemasonic yowl (so-called wa-wa, hat, etc.);
  6. also prohibited are so-called drum breaks longer than half a bar in four-quarter beat (except in stylized military marches);
  7. the double bass must be played solely with the bow in so-called jazz compositions;
  8. plucking of the strings is prohibited, since it is damaging to the instrument and detrimental to Aryan musicality; if a so-called pizzicato effect is absolutely desirable for the character of the composition, strict care must be taken lest the string be allowed to patter on the sordine, which is henceforth forbidden;
  9. musicians are likewise forbidden to make vocal improvisations (so-called scat);
  10. all light orchestras and dance bands are advised to restrict the use of saxophones of all keys and to substitute for them the violin-cello, the viola or possibly a suitable folk instrument.

O totalitarismo alemão tentou a todo custo encaixotar o Jazz em suas perspectivas “arianas”, bem longe de influências de “raças inferiores” como o povo judeu. É quase surreal a extensão do controle proposto, numa demonstração paradigmática de que uma sociedade totalitária esvazia qualquer possibilidade de ação criativa. O totalitarismo, extensivamente estudado no Século XX (especialmente por Hannah Arendt e seu “As origens do Totalitarismo”) é exatamente o sistema político que se torna onipresente na vida do cidadão, retirando até a possibilidade de mudança de sistema. Em vez da versatilidade, da alternância, do risco, o totalitarismo busca o método, o desempenho, a segurança. As liberdades individuais são suprimidas em prol do grande plano. O que é uma vida diante do projeto da coletividade? É sintomático que um regime calcado nessa lógica se encontre acossado pelo Jazz, música com história entrelaçada na sofrida trajetória dos negros norte-americanos, e que alcança justamente a virtuose estética com seus improvisos e harmonias de tirar o fôlego.

Quem venceu o confronto? Bem, a história está aí para renegar um dos movimentos estéticos à infâmia e exaltar o outro como representação visceral da liberdade e da pluralidade que é o agir humano. A renovação e reinvenção do Jazz é um testemunho à ideia de que a única e verdadeira música do todo não é só uma forma, mas a infinitude das possibilidades humanas.

A música como vetor de liberdade? Tema para outro post.

(Mais sobre a perseguição dos nazistas ao Jazz pode ser lido aqui, na Wikipedia mesmo. Sobre a ideia alemã de “música degenerada” é só ler aqui, também na Enciclopédia Virtual, grato a @cintia_nunes pelo link!)

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About Wagner Artur Cabral

filosofia política e futebol

One response to “A música do todo”

  1. Gabriel Galvão says :

    Excelente artigo. Lembrei, imediatamente, de dois livros que tocam no tema, embora não sejam exatamente sobre o mesmo tema:

    1. O Discurso dos Sons, de Nikolaus Harnoncourt: Harnoncourt, grande estudioso de música barroca, maestro e um dos expoentes do movimento que primava por interpretações históricas (executadas com instrumentos de época, tentando ser o mais fieis possível), fala, em certo ponto, sobre como a ordem que sempre existiu da música séria (como conceituaria Adorno) ser feita para e consumida por o homem de seu tempo foi quebrada com as vanguardas do século XX. É um livro, em certa medida, denso.

    2. O Resto é Ruído, de Alex Ross: conta a história do século XX fazendo paralelos com a história da música do século XX, começando pelas vanguardas do fim do romantismo do século XIX e chegando até a música pop de hoje. É brilhante ao comentar a relação entre as guerras e o entreguerras e as vanguardas. Fala, bastante imparcialmente, até, sobre os abusos cometidos pelos EUA e URSS contra a classe artística em nome de suas ideologias.

    Abraço,

    ggalvao

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