Quando a reafirmação de preconceitos se torna (ou não) subversão

A controvérsia recente sobre a ofensa dirigida ao músico Raphael Lopes pelo humorista Felipe Hamashi, no show “Proibidão” em São Paulo, merece uma pequena reflexão sobre como, mesmo após vinte e poucos anos de criminalização do racismo (por força da própria Constituição), a questão continua sendo tratada aos trancos e barrancos no Brasil.

Um parêntese necessário: antes que digam que o termo “ofensa” é muito parcial para o caso, que na verdade o que ocorreu foi uma piada, chamo a atenção para o nome do show: Proibidão. Os comediantes sabem que o conteúdo do show é feito de ofensas. Tanto que pediram que o público assinasse um termo com a promessa de que não se sentiria ofendido com nenhuma das piadas (embora, como apontado neste texto, seja um pouco estranho afirmar que você não se ofenderá com algo que ainda não ouviu). Fim do parêntese.

"Se você acha que ser comparado com o King Kong é ofensivo, problema seu."

Num mundo ideal, eu não estaria escrevendo mais um texto para adicionar à enorme pilha do que já foi produzido no Brasil sobre o problema do racismo. Portanto, numa tentativa de variar um pouco a abordagem da questão, chamo a atenção para o que está sendo dito lá fora: com a atenção do resto do mundo cada vez mais voltada para nós, é de se esperar que apareçam reportagens ressaltando não só as vitórias, mas também os desafios do país. Se uma revista como a Economist já falou da mal-agourada eleição para prefeito de São Paulo deste ano, é natural que também tenha se preocupado com um problema que nasceu bem antes de Piratininga se tornar megalópole.

Numa comparação interessante com a história dos Estados Unidos, este artigo da Economist sobre o racismo no Brasil afirma que os negros aqui são “neither separate nor equal“. Não é novidade que nosso racismo assume formas diferentes daquelas que caracterizam a barreira racial nos EUA. Mas, como bem ressaltado pelo artigo, já não podemos continuar a repetir o mito de que somos uma espécie de democracia racial e de que os negros só são discriminados por serem pobres. Até porque todos sabemos que pessoas como o músico que tocou no Proibidão não são exatamente pobres – pelo menos para os padrões brasileiros.

A eterna pergunta que se coloca é: qual o melhor jeito de remediar essa situação e de construir para o futuro uma sociedade em que haja verdadeira igualdade de oportunidades? Sabemos que as políticas de ação afirmativa são controversas: há estudiosos que apontam como desvantagem dessas políticas o fato de “criarem” categorias nas quais os brasileiros não estão acostumados a serem encaixados. Segundo esse argumento, não costumamos pensar em grupos de negros e brancos dividindo a sociedade brasileira, até porque há um grau considerável de miscigenação. Isso seria um ponto positivo da nossa sociedade, que seria minado pela necessária classificação das pessoas através de ações afirmativas.

Por outro lado, é difícil pensar como a manutenção do jeitinho brasileiro de lidar com as diferenças raciais teria o poder de mudar algo. O caso do Proibidão é um exemplo interessante porque mostra um tipo de raciocínio curioso (para não dizer tolo): a ideia de que fazer piadas ofensivas, que repetem preconceitos antigos mas ainda vivos, é de algum modo subversivo ou representa uma quebra de tabus, porque aparentemente a turma do politicamente correto criou um tabu de que não se pode chamar pessoas de macacos. (Colegas, não sei o que acontece na realidade paralela de vocês, mas na minha os tabus são coisas aceitas sem motivo, sem justificação. Ganha um chocolate quem me convencer de que não existe motivo para uma pessoa se ofender quando alguém a chama de macaco, ser de inteligência inferior – a não ser que essa pessoa seja ativista pelos direitos dos animais, o que, como se sabe, está longe de ser a maioria da população.)

Vamos refletir um pouco sobre isso para ver se entendemos: repetir um preconceito que a maioria das pessoas sabe que existe (só não quer assumir) e fingir que não há nenhum problema nisso é visto como subversivo. Se eu fosse um ser extraterrestre, caísse no Brasil e ouvisse isso de um humorista, acharia que existe uma ditadura negra no país. Afinal, pela ótica dos comediantes, parece que as pessoas não podem simplesmente negar que racismo seja um problema, que já são presas, caladas e queimadas na fogueira. Vale registrar que há quem critique seriamente o modo como o racismo é tratado no sistema penal brasileiro, desde o tipo da pena (reclusão, a mais severa das penas privativas de liberdade) até o fato de ser crime inafiançável (ou seja, se tiver sido decretada prisão preventiva – a que ocorre antes da condenação apenas para garantir o andamento do processo – não se pode evitá-la mediante o pagamento de fiança). Mas parece haver uma certa rebeldia sem cabimento na atitude de afirmar aquilo que todo mundo já sabe – que negros são vistos como inferiores – apenas para mostrar que você é cool e fingir que isso não é uma questão preocupante, para não entrar na onda cafona da turma do politicamente correto. Quando muito, esse tipo de piada-ofensa apenas faz com que as pessoas pensem: “Nossa, como ele é racista. Como ele é mau. Ainda bem que eu não sou assim.” Dá para ver nisso alguma grande quebra de tabus em relação ao que a maioria dos brasileiros já pensa?

Isso não quer dizer, é claro, que o racismo não possa ser objeto de humor. Contudo, se a intenção do comediante é fazer as pessoas avaliarem internamente seu próprio racismo, a elaboração de piadas mais inteligentes é um imperativo. Tampouco é a intenção aqui fazer apologia da censura. Para falar a verdade, não sei em que entrelinhas do texto alguém poderia enxergar uma defesa da censura dos shows de comédia. Mas, como tem gente que se esforça bastante nesse sentido, deixo aqui a lembrança de que censura prévia é proibida pela Constituição e de que a responsabilidade criminal pelo exercício da liberdade de expressão não equivale a censura, porque logicamente não impede que a pessoa fale o que queira – já que ocorre depois de ela ter dito o que queria. O sistema penal pode obviamente ser criticado, alternativas podem ser propostas, mas não é interessante nem justo misturar os conceitos de censura e de responsabilidade a posteriori. O problema maior não é a solução jurídica para esse tipo de caso, pois ela já é razoavelmente bem estabelecida (ainda que haja pontos questionáveis como o bizarro contrato de não-ofensa mencionado acima). O ponto que deve ser ressaltado é a falta de efetividade de uma corrente do humor nacional que se afirma como um convite à reflexão, quando na verdade essa reflexão só ocorre no sentido de espelhar nossa ancestral hipocrisia.

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About Bruna Pretzel

Arruma malas após a meia-noite e acredita em direito, política e linguagem para além dos contos de fadas.

7 responses to “Quando a reafirmação de preconceitos se torna (ou não) subversão”

  1. Rodrigo Badaró de Carvalho says :

    Que uma espécie peculiar de racismo ainda ocorre no Brasil creio que ninguém dúvida. Mas não tenho dúvidas que a principal forma de discriminação da nossa sociedade atual é a social. Se dela “ninguém” fala, então parece que o grande conflito que ocorre na realidade brasileira é o de “cor”. Longe disso. E, ainda que fosse, de certo que o problema não estaria no ‘humor negro’.

    Se a ideia é superar concepções e conceitos atrasados, seria um bom começo deixar de lado expressões como “Jeitinho Brasileiro” que não muito nos serve pra uma análise do Brasil atual. Não?

    • Bruna Pretzel says :

      Rodrigo, não entendi o seu ponto sobre a principal forma de discriminação no Brasil. Você quer dizer que o texto negligencia ou nega que exista discriminação social no Brasil? Poderia apontar em

    • Bruna Pretzel says :

      Rodrigo, não entendi o seu ponto sobre a principal forma de discriminação no Brasil. Você quer dizer que o texto negligencia ou nega que exista discriminação social no Brasil? Poderia apontar em qual trecho do texto foi dito que não existe esse tipo de discriminação ou que a principal forma de discriminação é a racial?

      Sobre a expressão “jeitinho brasileiro”, peço que ela seja lida no contexto em que foi escrita: “o jeitinho brasileiro de lidar com as diferenças raciais”. Não estou fazendo alusão a qualquer conceito genérico de “jeitinho brasileiro”, mas ao que foi descrito em pormenores no texto: a ideia de que reafirmar preconceitos como forma de humor é algo subversivo. Você poderia apresentar argumentos que defendam essa ideia?

  2. Wagner Artur Cabral says :

    Badaró, acho que a Bruna fez uma das poucas aplicações das palavras “jeitinho” e “brasileiro” seguidas que não importa no famoso conceito da Lei de Gérson. Mas seu ponto de que o próprio conceito de “jeitinho brasileiro” é algo importante – talvez para nossa própria construção de imagem como povo – é interessante, talvez possamos tratar disso no futuro.

    Eu francamente não vi ainda nenhuma argumentação defendendo a atitude dos comediantes, e creio que Bruna acertou em cheio no seguinte argumento:

    «Colegas, não sei o que acontece na realidade paralela de vocês, mas na minha os tabus são coisas aceitas sem motivo, sem justificação.»

    Essa “função social da comédia”, que é a imprescindível tarefa de apontar que o rei está nu, não é cumprida quando simplesmente se perpetua um preconceito estereotípico. Isso não é comédia nessa acepção construtiva, mas uma consideração de tom jocoso, sem nenhum papel útil. Da mesma forma que Nietzsche dizia filosofar com um martelo, o comediante (que se propõe a ser socialmente engajado) tem de contar piada como uma metralhadora, atingindo preconceitos e noções até sem querer. É preciso transgredir sim, mas o senso comum. Ofender por ofender é ofensa, e nada além disso.

    O que qualifica a comédia como um discurso importante – algo além do pueril – é o uso de suas ferramentas como a ironia e o sarcasmo para evidenciar o absurdo do mundo, e, assim, castigar os costumes. Uma comédia que não se coloca nessa missão ela será julgada como qualquer outra comunicação. Eu posso ofender se for por uma boa causa. Ofensa por ofensa é só falta de educação mesmo.

  3. Rodrigo Badaró de Carvalho says :

    Primeiro queria pedir desculpas pelo comentário mal escrito e rasteiro que fiz ontem. Acho que o cansaço físico se juntou ao psicológico e não deu boa coisa. Mas vamos lá!

    O texto não diz explicitamente que não há discriminação social mas quando escreve: “já não podemos continuar a repetir o mito de que somos uma espécie de democracia racial e de que os negros só são discriminados por serem pobres.”, me parece que abre espaço para uma interpretação que, a meu ver, é equivocada: a de que a principal discriminação no Brasil é a de raça.

    Quanto ao “Jeitinho Brasileiro”, invariavelmente me remete a conceitos ultrapassados que não consigo desconectar. E questionaria se o uso feito no texto procede, mas acho que não se trata de uma questão central aqui.

    Em síntese, acho que há um excesso dos discursos “politicamente correto” e “defensor de minorias” que acaba por tentar empurrar guela abaixo da sociedade questões que ela mesma ainda não digeriu devidamente. Não acho que esse tipo de humor, que tem sido metralhado aqui e em tudo que é lugar, seja revolucionário, subversivo… mas também não acho que tenha que ser. É simplesmente um humor escrachado que faz muita (ou pouca) gente rir. E que, a meu ver, não reforça e nem tampouco pretende reforçar o preconceito racial. Esses comediantes pra mim são espécies de atores que estão lá falando coisas que as pessoas querem ouvir, e ganhando por isso. Se amanhã falar de negro for sem graça, certamente não mais falarão. Percebem? O foco deve ser mudado, sair dos atores, ou dos comediantes, e ir pra platéia..

    • Bruna Pretzel says :

      Rodrigo, dizer que racismo é um problema que não está necessariamente acompanhado da discriminação social não significa, de modo algum, dizer que a principal discriminação no Brasil é de raça. Se eu digo que uma dor de cabeça é algo que não está necessariamente ligada a um tumor cerebral, isso não permite a interpretação de que a dor de cabeça causa mais mortes que o tumor. Acho que você criou entrelinhas que não existem.

      Sobre os comediantes serem obrigados a serem subversivos: você novamente criou entrelinhas que não existem. A crítica do texto é somente contra uma corrente do humor nacional que se afirma como “quebra de tabus”. Se eles não se afirmassem como tal, seria outra história completamente diferente. O problema todo é que eles próprios se atribuem uma função de fazer a plateia “pensar”, “reavaliar seus conceitos”, como você pode ler em uma das notícias que foi citada no texto. Como eu não acredito no potencial desse tipo de humor em fazer qualquer pessoa pensar além dos próprios preconceitos, sou obrigada a criticá-lo e apontar as contradições que ele apresenta.

      Tampouco escrevi que a culpa do racismo no Brasil é dos humoristas que fazem piadas ruins, ou mesmo que esse humor “reforça” o preconceito. Eu disse que ele espelha o preconceito, que é algo diferente de reforçar (no sentido de tornar mais grave). Espero que esses esclarecimentos ajudem a apagar as (não) entrelinhas que parecem incomodá-lo.

  4. Wagner Artur Cabral says :

    Rodrigo, eu concordo com Bruna: pelo que eu entendi do texto a ideia não era proibir (ou melhor, advogar a proibição) desse tipo de humor “escrachado”, somente dissociá-lo dessa imagem de subversivo. Humor subversivo é outra coisa. Mau gosto por mau gosto, é normal que haja espaço para isso na sociedade, sempre vai ter gente interessada nisso, e eu, particularmente, acho que não deveria ser proibido.

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