Archive | April 2012

Opinião de Quinta: É a economia, estúpido!

Prólogo da Casa: este post pertence a uma série colaborativa – a Opinião de Quinta – que estamos inaugurando hoje e que, para continuar, só depende da vontade de vocês, leitores. Já que este blog é uma homenagem ao espaço público, pretendemos publicar textos com argumentos sólidos – independentemente da posição defendida – para ampliar o leque de visões de mundo aqui retratadas. Como o nome da série sugere, os textos selecionados serão publicados às quintas-feiras. Em breve, postaremos mais informações sobre como participar.

Por André Castro (@brcandre)

O senso comum ecoa a tese de que os governos podem manipular as variáveis econômicas e, com isso, conseguir que a economia atinja o ponto que querem, sejam quais forem os seus objetivos. O ponto a ser discutido aqui é a seguinte questão: qual é o nível de controle que os governos têm sobre as economias nacionais? Uma das maiores influências sobre o voto em determinado candidato, legenda ou partido, principalmente para a Presidência, é a saúde da economia. Não é de hoje que se costuma recorrer ao chavão “É a economia, estúpido” para justificar por que um
governante não conseguiu ou conseguiu ser reeleito. Frequentemente se fala que certo governo “pouco fez” pelo crescimento e/ou que “relegou a indústria a um segundo plano”. Mas o que este mesmo governo poderia ter feito para que essas histórias fossem diferentes?

Na URSS, o PIB é quem determina o governo!

Por exemplo, poderíamos citar um meio de um governo intervir amplamente na economia: por meio da expansão da oferta monetária, a economia será irrigada com o dinheiro que o Banco Central usa para adquirir os títulos da dívida do governo, provocando um aumento da demanda pelos mesmos, e uma consequente queda da taxa de juros. O Banco Central do Brasil vem criando essa tendência desde o fim de 2011 como forma de estimular a economia e provocar uma menor atratividade externa aos investimentos no Brasil (pela taxa de juros menor), fazendo com que o país receba menos dólares e, portanto, a taxa de câmbio permanece desvalorizada, beneficiando, com isso, a indústria nacional (que pode faturar mais em suas exportações) – prega o mantra desenvolvimentista. Adicionando isso aos controles físicos de capitais e a algumas outras medidas macroprudenciais, temos uma situação na qual um governo tenta atingir um fim desejado (no caso em questão, maior crescimento econômico) mediante a adoção de certos meios (vale dizer, a política econômica).

Existe uma ampla discussão teórica sobre qual o objetivo das ciências econômicas, sendo que alguns autores postulam que o problema econômico fundamental da sociedade seria a utilização do conhecimento (em todas as suas formas, sejam teóricas ou técnicas), que nunca é dado sem sua totalidade: o conhecimento está disperso na realidade – às vezes contraditoriamente –, nunca está na forma já selecionada e preparada para os agentes usarem. Ademais, a própria realidade não existe em si, mas existe na percepção subjetiva que os agentes têm dela. O ponto a que quero chegar diz respeito ao questionamento proposto no começo: como acreditar que o governo é “senhor” de uma economia de mercado sabendo que o conhecimento e a realidade econômica são complexos e difusos demais para que um agente governamental – entendido aqui como um agente racional maximizador de uma função social sob restrições orçamentárias – os determine?

Trocando em miúdos, é ingênuo acreditar que o governo faz um país crescer. Quem o faz somos todos nós, membros da economia e da sociedade, participantes daquilo que se chama setor privado. O governo não gera riqueza per se, ele apenas redistribui a riqueza tirada de membros da sociedade para fins alternativos que ele julga – supostamente sob a legitimidade de seus cidadãos – serem socialmente superiores ao resultado de o dinheiro ser gasto privadamente: gerando educação, saúde, defesa nacional, obras e demais bens públicos. (Um contraponto a esta ideia seria a maior participação do Estado na economia que alguns países adotam, apesar de não ser um contraponto absoluto. Vide esta série de reportagens especiais da revista britânica The Economist.)

Claro que não é preciso recorrer ao extremo oposto, representado por Rick Santorum, ex-pré-candidato republicano às eleições americanas: “Eu não me importo com qual será a taxa de desemprego. Isso não me importa. Minha campanha não depende das taxas de desemprego e de crescimento econômico”. Depois o redneck afirma que os ditos “conservadores” acreditam que o governo não cria empregos, atacando o outro pré-candidato republicano Mitt Romney, que afirmara que sua experiência trará empregos para o americano. Cabe esclarecer que o conservadorismo americano está mais próximo do liberalismo econômico clássico, apesar de Santorum provavelmente não ter muita ideia do que seja isso.

Presumamos, portanto, que o governo tem um grande controle sobre as variáveis macroeconômicas de interesse. Mas este controle não é e não pode ser absoluto. Por fim, como em diversos casos, a verdade – que talvez não more num poço – está no meio do caminho: nem tanto ao mercado, nem tanto ao governo.

Arte de segunda (09/04)

Se vivêssemos numa distopia totalitária na qual os artistas formassem a cúpula do partido governista, a arte de rua provavelmente teria uma função bem definida: garantir que cada muro cinza em cada cidade tivesse uma explosão inesperada de cor. Nessa ditadura inusitada, o parisiense Christian Guemy, conhecido no meio como C215, seria indicado como um modelo a ser seguido. Seus retratos hipercoloridos homenageiam rostos anônimos da cidade e não parecem ser menos que exortações contra o monocromatismo, como se este fosse um verdadeiro crime a ser evitado e punido com máxima urgência. Depois de admirar o trabalho deste artista por alguns momentos, resta-nos respirar aliviados e lembrar que a arte de rua nada mais é do que uma celebração (ainda que efêmera) da nossa sempre precária liberdade.

Mais do trabalho de C215 pode ser visto aqui. As fotos acima foram retiradas da coleção do Street Art Utopia.

Regras para um bom debatedor

"Esta não é uma discussão!"

O sempre combativo João Telésforo (@jtelesforo no twitter, vale também o follow – menos em assuntos futebolísticos) elaborou uma lista de 12 regras para bons debatedores que está disponível para leitura e comentários no blog B&D – Brasil e Desenvolvimento. Vou tomar a liberdade de publicar o texto na íntegra, ressalvando o convite para que todos dêem um pulo lá no site original e leiam outros posts do blog desse grupo bastante interessante “sediado” na UnB. É um dos poucos grupos brasileiros que eu me arrisco a chamar de “progressista” sem sombra de sarcasmo, creio que infelizmente. Numa terra em que até os liberais são conservadores não há como se por muita fé no progresso.

De todo modo, ao post, seguido por comentários:

Por João Telésforo Medeiros Filho

Aos amigos do Instituto Alvorada e do grupo Repensar a Esquerda, inspirado por nossos bons debates.

1. Antes de falar (ou escrever), ouça (ou leia) o que a outra pessoa tem a dizer.

2. Espere a outra pessoa terminar de falar, ouça-a até o fim, não a interrompa. Não suponha que você já sabe o que ela vai dizer, nem que ela não pode falar nada que tenha importância.

3. Desqualificar o seu interlocutor (ou interlocutora), seja lá no que for, não prova que o ponto que você defende esteja certo (a não ser que a discussão seja sobre os méritos do seu interlocutor, o que não costuma ser muito produtivo).

4. Vá além do Fla-Flu. Lembre-se que, nas questões que vale mais a pena discutir, dificilmente existem apenas dois lados, um contra e um a favor. Preste atenção à variedade de posições existentes, às diferenças, grandes ou sutis, entre elas.

5. Esteja aberto a aprender com o seu interlocutor (ou interlocutora), e com o desenrolar da discussão. Disponha-se a considerar novos fatos e pontos de vista, e a criar, por meio do processo de diálogo, novas ideias, que não estavam no seu mapa mental antes. Essa é uma das principais razões para se discutir qualquer coisa.

6. Não compartilhe apenas opiniões e certezas com o seu interlocutor, mas também dúvidas, angústias e inquietações. Quando duas pessoas pensam a partir de perguntas, é maior a chance de que possam, juntas, dar passos adiante na compreensão das diversas respostas possíveis, bem como na imaginação de novas respostas e perguntas.

7. Evite usar rótulos pejorativos, como “reacionário”, “extremista”, “pelego” (e também, claro, “imbecil” ou “burro”), para enquadrar o interlocutor. Ainda que as opiniões dele realmente mereçam rótulos desse tipo, você vai ter mais sucesso em mostrar o seu ponto se conseguir expôr de outra maneira a falta de fundamento de uma ideia ou argumento, ou o seu teor nocivo.

8. Evite até mesmo rótulos que não tenham, necessariamente, sentido pejorativo (como liberal, comunista, etc). Eles têm sua utilidade em diversos contextos, mas o seu uso, numa discussão, frequentemente acaba levando-a a ser mais sobre o rótulo (eu/você sou/não sou é/não é liberal/comunista/capitalista), e menos sobre a questão em torno da qual se pretendia conversar. Então, é melhor usar um rótulo só se você estiver a fim de discutir isso (o que até pode valer a pena eventualmente, por diversas razões).

9. Encare o diálogo como uma conversa, não como uma briga. Seu objetivo não é destruir o interlocutor, nem mostrar que ele é um bosta e você é foda (a não ser que você seja um completo idiota e costume conversar com os outros por essa razão – ops, se for esse o caso, acabo de rotulá-lo ;) ). Não é melhor dialogar para pôr os próprios pontos de vista à prova do raciocínio de outras pessoas, conhecer perspectivas diferentes das suas, pensar novas ideias em conjunto com outras cabeças?

10. O desejo de convencer os outros também é legítimo, claro – e, por vezes, pode ser até um dever -, mas não se deixe cegar por ele. Não se torne dogmático, fechado à reflexão autocrítica, à curiosidade por ideias diferentes e novas, e à criatividade que pode emergir de uma boa discussão.

11. Não trate o seu interlocutor como um idiota, não use de didatismo exagerado. Por outro lado, também não pressuponha que ele conhece os seus pontos de partida ou concorda com eles. Quando se tratar de uma premissa fundamental à compreensão do seu raciocínio, cheque se está clara e compreensível, e a exponha bem.

12. E aí, o que achou destas regras?

PS: eu mesmo, infelizmente, tenho dificuldades para conseguir cumprir várias dessas regras. Quanto mais consigo fazê-lo, porém, percebo que mais proveitoso costuma tornar-se o debate. Então, este texto é literalmente de auto-ajuda: uma sistematização que escrevi para ajudar a mim mesmo.

João nos passou a perna – são só 11 regras, pensa que não notei? – mas elaborou um bom ponto de partida. Gostaria de acrescentar algumas ideias para sua avaliação.

A ideia de uma espécie de regras de um debate humanitário é excelente, e se tem algo que a esfera pública de debate precisa para sua sofisticação é a adoção de algumas linhas para compreensão mútua. Como Telésforo evidenciou, não se trata de um jogo de soma zero, em que um precisa sair vencendo. Se você acredite em um ambiente de pluralidade discursiva, então você precisa ter a maturidade para aceitar a dialética, no aparar dos discursos que se chocam. Por mais que o imaginário popular geralmente trate os grandes debates como campo de guerra eles são, em essência, mais assemelhados a partidas de xadrez. Há regras que devem ser seguidas para que o objetivo final seja alcançado. Qual é esse objetivo? Entre os debatedores honestos é a compreensão. Há infinitos malucos da estirpe de Reinaldo Azevedo por aí, que só fazem apologia de ideias, sem jamais serem convencidos de nada (Podem me apedrejar, mas eu acho os chiliques de Diogo Mainardi extremamente divertidos, a rusga dele com Cuiabá foi uma das coisas mais hilárias que eu já li na vida). Mas para aqueles sinceramente preocupados em fazer um Brasil melhor devem se voltar para outros exemplos, muito mais profundos e úteis. Pra cada Reinaldo Azevedo há dúzias de Alon Feuewerker (@AlonFe), Raphael Neves (@politikaekt) ou Joões Telésforos da vida dispostos a discutir abertamente. Por isso eu sugiro uma regra a ser inclusa em qualquer lugar: Não discuta com quem não quer discutir. Se a pessoa só quer perder seu tempo te fazendo ouvir suas verdades dogmáticas, enuncie aquele samba: eu não sou porta de cinema para te dar cartaz. Discutir com uma porta só vai te fazer gastar sua voz (ou dedos), não ajudando nem você nem a porta. E te fazendo perder a paciência com pessoas que tem um interesse genuíno em se fazer entender.

Um parêntese: para como lidar com os crápulas, se você ainda assim quiser passar pelo sofrimento que é discutir à toa, recomendo a leitura de Arthur Schopenhauer, que fumaçava de ódio desse tipo de figura, e escreveu um curtíssimo manual colérico contra essa forma de patifaria, mui adequadamente apresentado no Brasil por Olavo de Carvalho. A ironia beira o sublime.

Continuando: Trata-se de uma questão de urbanidade. Inclusive eu dividiria o Codex Telesforiano em três tipos de regras: (1) Regras de Urbanidade – aquelas que sua mãe deveria ter te ensinado, i.e.: 1,2,9,10. (2) Regras de Técnica Discursiva – ninguém nasce sabendo, mas um dia precisa aprender a não ficar andando em círculos (3-5, 7 e 8). 3) Princípios de Valor Discursivo – coisas que você nunca deveria perder de vista se pretende levar a sério o seu papel como cidadão ativo na pólis (6 e 11). Nós vivemos em um ambiente discursivo podre, e só essas regrinhas já ajudariam bastante a tirar esse peso maçante de décadas de gordura ideológica permeando nossos discursos, em que literatos e poetas se estapeiam entre volumes surrados da coleção Os Pensadores da Abril. Precisamos pensar com menos preconceitos, menos espírito de clube (A Frente Popular pela Libertação da Judéia não chegou perto de seus objetivos, infelizmente).

Uma das regras mais interessantes a meu ver é a 6, na medida em que ela clama para que os debatedores questionem-se. É muito mais fácil testar a força de um argumento submetendo-o a exemplos. E nesse caso, como fica? Mas eu não sei como a situação se desdobraria no seguinte caso. E agora? Essa espécie de admissão de dúvida é algo que muitas vezes passa longe dos debatedores públicos brasileiros, todos empenhados na ideia de defender sua bandeira a ferro e fogo. Defender uma posição ideológica não é o essencial. Sou amigo de Platão, mas sou mais amigo da verdade. Muitas vezes sua própria compreensão da situação em discussão pode estar prejudicada. Muitas vezes sua opinião pode estar diametralmente equivocada. É um fato da vida, nós erramos. E se perdoamos nossa falibilidade poderemos entender que todos são passíveis de erro, mesmo nossos dialogadores. Se temos plena convicção de sua disposição para um debate sério então a discussão passa por descobrir os pontos de divergência, os elementos de de divergência. Com base nesse espírito sugiro mais uma regra: Estimule a divergência leal. O conceito de loyal opposition é muitas vezes ignorado por nós. Às vezes mais importante do que ter um apoio diuturno é ter um crítico costumeiro que sempre vai te chamar a atenção quando você sair da linha. Valorize seus debatedores, o sucesso do seu aprendizado sempre será devido, ao menos em parte, a eles.

Finalmente, um último comentário: uma das melhores coisas de discutir com pessoas com formação marxista (marxiana?) é a honestidade nas premissas. É uma questão de praticidade discursiva deixar bem claro, sem rodeios, quais são os fundamentos da sua construção de ideias. É praticamente impossível refutar uma afirmação que não é fundamentada em termos claros, e muitas vezes o grosso do esforço discursivo está em encontrar essas fundamentações, esses pontos nevrálgicos do debate. Conheça seu argumento, suas premissas, e exponha-as para que sejam avaliadas e criticadas. Muitas pessoas entendem isso como um gesto de fraqueza, simplificar seu discurso até o ponto de ser entendido. Longe de ser um vício, a didática é uma virtude, contanto que não incorra em simplificações exageradas: caberá a você, que está defendendo seu argumento, sofisticar e demonstrar a complexidade dos argumentos, somente na medida em que se tornarem necessários. Como uma raiz, que vai chegando mais fundo e se ramificando mais, em mais ideias mais profundas. Se você quiser empurrar pra pessoa 20 conceitos de uma vez, ou presumir que ela já os conheça, provavelmente não chegará a lugar nenhum. Melhor é pensar da seguinte forma: é importante evidenciar quais são as premissas básicas do seu argumento e partir daí para aprofundar o que for necessário para uma melhor compreensão mútua no diálogo.

Por enquanto é só. Como qualquer diálogo, passo agora a bola de volta para nosso Ponta-Esquerda João Telésforo para que continue seu trabalho de construção de uma sociedade brasileira um pouco mais livre e mais justa.