Opinião de Quinta: É a economia, estúpido!

Prólogo da Casa: este post pertence a uma série colaborativa – a Opinião de Quinta – que estamos inaugurando hoje e que, para continuar, só depende da vontade de vocês, leitores. Já que este blog é uma homenagem ao espaço público, pretendemos publicar textos com argumentos sólidos – independentemente da posição defendida – para ampliar o leque de visões de mundo aqui retratadas. Como o nome da série sugere, os textos selecionados serão publicados às quintas-feiras. Em breve, postaremos mais informações sobre como participar.

Por André Castro (@brcandre)

O senso comum ecoa a tese de que os governos podem manipular as variáveis econômicas e, com isso, conseguir que a economia atinja o ponto que querem, sejam quais forem os seus objetivos. O ponto a ser discutido aqui é a seguinte questão: qual é o nível de controle que os governos têm sobre as economias nacionais? Uma das maiores influências sobre o voto em determinado candidato, legenda ou partido, principalmente para a Presidência, é a saúde da economia. Não é de hoje que se costuma recorrer ao chavão “É a economia, estúpido” para justificar por que um
governante não conseguiu ou conseguiu ser reeleito. Frequentemente se fala que certo governo “pouco fez” pelo crescimento e/ou que “relegou a indústria a um segundo plano”. Mas o que este mesmo governo poderia ter feito para que essas histórias fossem diferentes?

Na URSS, o PIB é quem determina o governo!

Por exemplo, poderíamos citar um meio de um governo intervir amplamente na economia: por meio da expansão da oferta monetária, a economia será irrigada com o dinheiro que o Banco Central usa para adquirir os títulos da dívida do governo, provocando um aumento da demanda pelos mesmos, e uma consequente queda da taxa de juros. O Banco Central do Brasil vem criando essa tendência desde o fim de 2011 como forma de estimular a economia e provocar uma menor atratividade externa aos investimentos no Brasil (pela taxa de juros menor), fazendo com que o país receba menos dólares e, portanto, a taxa de câmbio permanece desvalorizada, beneficiando, com isso, a indústria nacional (que pode faturar mais em suas exportações) – prega o mantra desenvolvimentista. Adicionando isso aos controles físicos de capitais e a algumas outras medidas macroprudenciais, temos uma situação na qual um governo tenta atingir um fim desejado (no caso em questão, maior crescimento econômico) mediante a adoção de certos meios (vale dizer, a política econômica).

Existe uma ampla discussão teórica sobre qual o objetivo das ciências econômicas, sendo que alguns autores postulam que o problema econômico fundamental da sociedade seria a utilização do conhecimento (em todas as suas formas, sejam teóricas ou técnicas), que nunca é dado sem sua totalidade: o conhecimento está disperso na realidade – às vezes contraditoriamente –, nunca está na forma já selecionada e preparada para os agentes usarem. Ademais, a própria realidade não existe em si, mas existe na percepção subjetiva que os agentes têm dela. O ponto a que quero chegar diz respeito ao questionamento proposto no começo: como acreditar que o governo é “senhor” de uma economia de mercado sabendo que o conhecimento e a realidade econômica são complexos e difusos demais para que um agente governamental – entendido aqui como um agente racional maximizador de uma função social sob restrições orçamentárias – os determine?

Trocando em miúdos, é ingênuo acreditar que o governo faz um país crescer. Quem o faz somos todos nós, membros da economia e da sociedade, participantes daquilo que se chama setor privado. O governo não gera riqueza per se, ele apenas redistribui a riqueza tirada de membros da sociedade para fins alternativos que ele julga – supostamente sob a legitimidade de seus cidadãos – serem socialmente superiores ao resultado de o dinheiro ser gasto privadamente: gerando educação, saúde, defesa nacional, obras e demais bens públicos. (Um contraponto a esta ideia seria a maior participação do Estado na economia que alguns países adotam, apesar de não ser um contraponto absoluto. Vide esta série de reportagens especiais da revista britânica The Economist.)

Claro que não é preciso recorrer ao extremo oposto, representado por Rick Santorum, ex-pré-candidato republicano às eleições americanas: “Eu não me importo com qual será a taxa de desemprego. Isso não me importa. Minha campanha não depende das taxas de desemprego e de crescimento econômico”. Depois o redneck afirma que os ditos “conservadores” acreditam que o governo não cria empregos, atacando o outro pré-candidato republicano Mitt Romney, que afirmara que sua experiência trará empregos para o americano. Cabe esclarecer que o conservadorismo americano está mais próximo do liberalismo econômico clássico, apesar de Santorum provavelmente não ter muita ideia do que seja isso.

Presumamos, portanto, que o governo tem um grande controle sobre as variáveis macroeconômicas de interesse. Mas este controle não é e não pode ser absoluto. Por fim, como em diversos casos, a verdade – que talvez não more num poço – está no meio do caminho: nem tanto ao mercado, nem tanto ao governo.

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About Bruna Pretzel

Arruma malas após a meia-noite e acredita em direito, política e linguagem para além dos contos de fadas.

3 responses to “Opinião de Quinta: É a economia, estúpido!”

  1. Samuel Franck says :

    Gostei do espaço, parabéns aos autores!
    Também acredito que um meio termo entre governo (Estado?) e mercado tem sido o arranjo mais eficiente. Mas a questão que não cala é o hiato que resiste há algum tempo entre bases teóricas contrastantes. É justamente o fato de a prática preceder a teoria o que tem despertado certo incomodo com o arcabouço teórico da economia moderna, como se estivesse em falta uma abordagem que abarque, ao menos em parte, ambas visões ou que levasse a um caminho diferente.
    No dia a dia de uma empresa de capital misto brasileira, onde os funcionários têm participação nos lucros, enquanto alguns criticam a manutenção dos preços dos combustíveis abaixo do mercado internacional, outros, mesmo com redução do próprio lucro, defendem a política de responsabilidade da firma sobre o impactos sócioeconômicos do aumento de preço que atinge desde o início das cadeias produtivas até o consumidor final. Acredito que assim o fazem por entenderem que o é o Estado quem garante os direitos, todos eles, e que portanto este tem o dever e o poder de interferir na economia em busca do bem comum.
    Poderia até discutir-se sobre a questão de monopólios estatais, mas o fato é qual outro acionista além do Estado estaria disposto em converter lucro financeiro em beneficios sociais?
    Particularmente penso que aqueles que como eu procuram evitar os extremos sobre este assunto andarão angustiados por algum tempo.

  2. Samuel Franck says :

    O link do The Economist está falhando, acho que tiraram o material 😦 , sabe se tem a serie em outro site? Grato.

  3. André Castro says :

    Não entendi o que você quis dizer com “a prática precede a teoria”. Quanto ao controle que a Petrobras exerce sobre o preço dos combustíveis, a minha opinião é que, como qualquer controle de preços, há distorções de incentivos que reprimem a demanda e impedem a oferta de supri-la, sendo, portanto, ineficiente. O Estado se arrogar como garantidor do “bem comum” (seja lá o que isso for, quiçá uma função de utilidade agregada) é um pouco perigoso, porque nos levar a caminhos de controle estatal indesejáveis. Aqui estão as matérias da “The Economist”: http://www.economist.com/node/21543160 e http://www.economist.com/node/21542931

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