Archive | May 2012

A crítica da crítica da crítica da orkutização

São Paulo, 1995. Imagine uma criança de menos de dez anos, classe média-alta, que fuçava o primeiro PC dos pais nas horas vagas – que eram muitas. Imagine agora que você tem uma máquina do tempo e que seu Deus (seja ele Jeová ou Steve Jobs) lhe impôs a missão de explicar a essa criança em poucos minutos para que serve o Twitter.

A primeira resposta infantil que consigo imaginar, para essa hipotética explicação, é: “Então as pessoas usam o Twitter para reclamar de tudo?”

Sim, no fim das contas uma importante função do Twitter é reclamar das coisas, o que não significa necessariamente que seja uma ferramenta inútil: você pode reclamar do fato de que é segunda-feira, mas também pode reclamar do desvio de verbas públicas e organizar protestos potencialmente revolucionários (supondo que a liberdade de expressão seja respeitada no seu país e que seus amigos tuiteiros entendam o conceito de ativismo fora da internet).

Ultimamente tem aparecido com frequência um assunto com aparência de inutilidade, mas que esconde mais relevância do que normalmente se enxerga. Começou com alguns hipsters – os que acham que ser interessante é ser diferente de todo mundo, menos de quem é hipster igual a eles – que reclamaram e reclamam da popularização das redes sociais. Primeiro foi o Orkut, agora é o Instagram, e o conteúdo da reclamação é no fundo sempre o mesmo: “Que saco, vou ter que conviver online com gente pobre; não faço isso nem na vida real, por que tenho que aturar na internet?”

O “brega irônico”: um novo jeito indie de fingir que você só é brega porque está na moda.

Às vezes as reclamações ganham tons mais “políticos”, principalmente de quem se diz progressista mas tem vergonha de admitir que não gosta do que é popular: “Qual é o sentido de existir liberdade de expressão na internet se todo mundo é chato, conservador, diz coisas que eu não quero ler e não curte meus protestos dadaístas no Facebook? Ai, que gente sem cultura! No meu mundo ideal todo mundo leria Walter Benjamin no jardim de infância. Vou lá comprar um café gourmet do Starbucks pra ver se me animo.”

Então veio a onda de contraprotestos. Alexandre Matias chamou essa atitude de “reacionarismo barato”, algo que eu traduziria para a criança dos anos 90 como nariz empinado. Antes, Leonardo Sakamoto reclamou de seu amigo que achava que o povo brasileiro tinha que parar de ouvir tecnobrega e começar a ouvir só Chico Buarque – queridíssimo hors concours de todos os hipsters brasileiros, artista respeitável, mas, convenhamos, um ótimo exemplo de pasteurização (se esse adjetivo lhe parece eurocêntrico, bingo, você entendeu) do samba carioca pra inglês e brasileiro rico ouvir. Disse Sakamoto em seu protesto contra a “civilização pela cultura”:

Defender, propagar, incentivar as manifestações tradicionais é fundamental porque elas fazem parte de nossa identidade e ajudam a definir o brasil como Brasil. Mas sem desconsiderar as outras manifestações que ganharam visibilidade, também têm o seu valor e são queridas por muita gente.

Parece ser uma posição sensata, não? Na disputa Sakamoto e Matias versus A Irmandade do Nariz Altivo, os primeiros andam vencendo. Mas, já que estamos na Casa dos Comuns, o blog que não se contenta com vitórias fáceis, vou brincar de Marx e Engels antes do Manifesto Comunista (notem meu esforço para ser hipster) e reclamar das reclamações das reclamações.

É verdade que muita gente que critica a orkutização sofre de uma crise de identidade estética. Por um lado, tenta dizer para o mundo que não se importa com o que é popular: o bom e belo é o alternativo. Por outro lado, ao dar toda essa atenção à arte que consideram inferior (Michel Teló deve pensar todo dia: “falem mal, mas falem de mim”), só validam a impressão de que popularidade é uma medida possível para o valor estético. Do contrário, não precisariam se esforçar tanto para convencer as massas de que elas estão erradas!

Tudo bem, é feio e démodé ser hipster. Mas e a estética, morreu? Ninguém mais pode dizer que um Picasso é mais (ou menos!) belo que os zilhões de desenhos que as pessoas andam fazendo em seus smartphones? Você pode tentar fingir que não acha a Velha Guarda da Portela esteticamente superior a “Sou Foda”. Eu direi que você é hipócrita até que você me dê argumentos que não sejam “o belo é relativo”. (Exercício rápido: e quando o imitador da Bethânia canta “Sou Foda”? Isso muda alguma coisa?)

Vou escrever isto e correr o risco de que comecem a criticar meu texto antes de terminá-lo: o relativismo estético é uma falácia. O belo não decorre logicamente do que uma ou outra pessoa acha, ou mesmo do que uma multidão adora ou odeia. Existem critérios estéticos objetivos; ou, pelo menos, é possível atingir essa objetividade através de discussão. Porém, todavia, no entanto, dizer isso é diferente de dizer: I) que é certo gostar do que é belo e errado gostar do que não é belo; II) que os critérios estéticos dominantes numa certa comunidade estão certos.

O ponto I é uma presunção errada de quem critica a orkutização. Pressupõe-se que, se alguém gosta de algo, isso implica necessariamente que esse alguém valoriza esse algo como belo, e não por qualquer outro critério (como “eu gosto de ouvir funk proibidão porque ajuda a animar e relaxar a tensão”). Presume-se também que, se algo não é belo, as pessoas estão obrigadas a não gostar daquilo, sob pena de terem seus cérebros derretidos ou de serem ostracizados. Isso é bastante perceptível no tratamento da moda pela mídia: os critérios do que é belo são confundidos com o que você pode ou não usar. Separando essas duas esferas de avaliação, é possível abordar a moda criticamente sem cair na falácia do relativismo. Por exemplo, se eu quero usar uma calça que deixa meu traseiro saliente e se isso é considerado feio, eu não deveria ser socialmente discriminada por causa de um mero juízo estético. Isso não significa, por outro lado, que todas as roupas do mundo fiquem igualmente bonitas no meu corpo.

Não sou obrigada a imitar a Sarah Jessica Parker se ela usa um vestido feio.

Eu chamaria o ponto II de preguiça estética. Tem bastante a ver com o que o Wagner Artur escreveu ontem a respeito da normalização das diferenças raciais. O preguiçoso estético presume que, já que o relativismo é uma falácia, os critérios estéticos mais aceitos pela sociedade estão automaticamente certos. Portanto, não importa se a sociedade é racista, se a indústria da moda economiza tecido e ganha mais fazendo roupas para cabides e não para mulheres de verdade, ou se o funk é considerado música inferior porque é som de preto e de favelado. A falta de reflexão sobre quem e o que determina o belo acaba matando a estética e transformando-a em uma moral capenga – você deve ser mais branco, a fulana tem que ser mais magra. Porque “sempre e em todo lugar foi assim”, porque é “da natureza das coisas”.

O problema é que a crítica a esse tipo de posicionamento também é preguiçosa: diz-se que a beleza é relativa porque existem muitos critérios possíveis. Bem, existem muitos critérios possíveis para medir riqueza, mas dizer que o Brasil é rico porque tem muitas pessoas não ajuda a aumentar nosso PIB. Critérios servem a determinados propósitos: os estéticos deveriam servir apenas a um exercício intelectual honesto de apreciação da cultura humana, não à marginalização de indivíduos na sociedade.

Em outras palavras, não é necessário – é errado! – dizer que “o belo é relativo” para criticar padrões de beleza dominantes. Se você critica, presume-se que você quer apresentar outro critério do que é belo; talvez um critério mais inclusivo. E não há nada de errado em assumir que o seu critério é melhor do que aqueles mais aceitos pela sociedade. É apenas uma questão de honestidade intelectual; ou, como eu explicaria para a criança do passado, de evitar o nariz empinado e a preguiça.

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A anatomia da persistência da raça

Fale-me mais do seu preconceito racial

Quando o seriado Grey’s Anatomy estreou, em meados de 2005, trouxe ao cenário da cultura pop norte-americana uma nova realidade, a do chamado colour-blind casting. Quando sua produtora principal (cargo que em inglês se dá o nome de showrunner, a pessoa responsável por fazer o show sair do canto) Shonda Rhimes escreveu o episódio-piloto, aquele em que todas as personagens são apresentadas e contextualizadas, não acrescentou qualquer característica de natureza racial à descrição de seus personagens. Rhimes, que é uma negra baixinha que está mais próxima fisicamente de uma Oprah Winfrey do que de um Lorne Michaels, Chuck Lorre ou J. J. Abrams, para citar somente alguns dos showrunners mais famosos dos E.U.A.

Para Rhimes, nós estamos em uma época de diversidade patente. “Nós somos bebês pós-direitos civis, pós-feminismo, e partimos do pressuposto que vivemos em um mundo diversificado”, disse certa vez a executiva. Fruto dessa convicção política toda a fisionomia do programa foi moldada: atores foram escolhidos ignorando suas características raciais. Afinal, nenhum personagem possuía nada além de sua personalidade. Na visão de Rhimes a cor – ou raça, como preferir – deve ser mais uma descrição do que exatamente uma definição, algo essencial à sua personalidade. Ser branco ou negro não te afirma como uma pessoa A ou B, apenas é um elemento de sua aparência, tangencial. Então faria todo sentido do mundo ignorar esses elementos pontuais para dar espaço a uma nova experiência: a televisão pós-racial.

O discurso pós-racial não é exatamente novo. É inclusive extremamente popular na esfera pública de discurso, sobretudo para apontar que toda essa questão racial é datada, faz parte de uma forma de mundo relutante à aceitação da diversidade como um fato da vida. Há vários segmentos da política que apontam que qualquer espécie de política racial seria alicerçado exatamente num conceito que perdeu seu objeto, servindo apenas de casca oca, que acaba prendendo o discurso em elementos retrógrados. Ora, se não se fala mais de “raça” no debate político, então todas as questões políticas deveriam seguir os princípios colour-blind. Ou não?

Há autores que pensam de forma diferente. Esse colour-blind seria uma forma de tirar a questão racial do discurso, mas não faria sumir os problemas oriundos de séculos de racismo. Em recente artigo Sophie Tapper avalia o impacto de políticas colour-blind na sociedade neozelandesa, que é dividida entre os Māori (os nativos) e os Pākehā (os brancos e/ou de ascendência europeia). Da mesma forma como atualmente se discute no Brasil em relação às políticas raciais, argumenta-se no outro lado do mundo se essa diferenciação de raça não estaria mascarando a raiz do problema, a desigualdade econômica. Esse é o ponto de vista defendido por Don Brash, ex-líder do Partido Nacional (um libertário empedernido, que tem em seu currículo votos contra a proibição da eutanásia e da prostituição, entre outras áreas), em um célebre discurso que pauta até hoje o debate político racial na Nova Zelândia. O paradigma de Brash é o de que só existe uma única nação, e qualquer tentativa de exaltar ou afirmar um sub-grupo dessa unidade não terá interesse que não seja o da secessão e divisão no país.

Contudo, tal pensamento também não é de forma alguma aceito pacificamente. Essa lógica, a de que afirmação racial equivale a insuflar o dissenso, faz parte do pacote de ideias que são chamadas de colour-blind racism, ou, numa tradução aproximada, racismo sem cor. Esse racismo seria justamente  a proposta de surrupiar da esfera política a possibilidade do reconhecimento racial, e, com ele, a constatação de diferenças e alteração de injustiças advindas do caráter político da raça. Parte da academia que discorda dessa lógica considera-se que há três elementos essenciais no colour-blind racism. A individualização, o liberaismo discursivo e a normalização.

O primeiro elemento, a individualização, é o argumento que concretiza o racismo no ato que o realiza. Não há racismo como ideologia, mas somente atos racistas, realizados por indivíduos. Essa visão busca afastar a possibilidade de discriminação coletiva, ou mesmo institucional. Formalmente – e constitucionalmente – as pessoas são iguais, afirmar qualquer vantagem acima dessa igualdade subjacente seria o chamado “preconceito reverso”, com um grupo minoritário se afastando do maior voluntariamente. Com base nas conquistas dos direitos sociais da segunda metade do século XX, ele desautoriza o argumento racial afirmando que qualquer preconceito subsistente não é mais problema da sociedade, mas da pessoa preconceituosa.

O segundo elemento é o do liberalismo discursivo, que é a utilização de vários conceitos e elementos do discurso liberal para desqualificar a afirmação racial. Afinal, o que é mais importante, que os negros tenham vantagens ou que todos possuam vantagens iguais? Que o melhor vença, ou o melhor com uma “ajudinha” por causa da sua cor? Que o Estado intervenha em uma disputa livre ou não? O discurso liberal, sobretudo em sua versão mais simplificada e panfletária, é cheio de chavões como “igualdade” e “meritocracia”, que são frequentemente arremessados contra qualquer proposta de política racialmente consciente. Os políticos que rechaçam o discurso racial alegam inclusive estar defendendo os interesses de todas as minorias raciais, já que eles defendem a liberdade em geral.

O terceiro e último elemento é o da normalização. Trata-se de considerar certas situações que o discurso racial aponta como injustas como sendo, na verdade, normais. E por isso se busca estabelecer parâmetros culturais ou comparativos. O melhor exemplo para entender o discurso da normalização é o de outra forma de preconceito, o contra homossexuais. A grande maioria dos opositores do casamento igualitário alegam que um casamento entre pessoas do mesmo gênero não seria um casamento, já que, culturalmente, é esse o nome dado a uma instituição religiosa que tradicionalmente une homem e mulher. Foi a cultura que definiu assim, é assim que as coisas são. Portanto, parte-se de uma espécie de consenso discursivo, reconhecendo que certa informação é dada e certa. No aspecto racial essa normalização se dá de forma ainda mais curiosa: é esse o argumento que diz que, por exemplo, negros são pobres por serem culturalmente menos propensos  à educação, ao contrário de outra “minoria”, os asiáticos. Enquanto asiáticos tem desempenhos escolares brilhantes, negros em geral tendem a figurar em maior número nas listas de evasão e/ou repetentes. É essa a raiz de pensamentos como o daquele Cônsul do Haiti que acusou o país de sofrer maldição por excesso de magia negra, traço natural dos povos africanos. Trata-se de uma análise comparativa: se há tantos países “brancos” ricos e “negros” pobres, deve haver uma relação. As auguras das minorias não seriam, então, uma tragédia acessória, mas uma característica essencial.

Desnecessário dizer que os três argumentos são toscos, para dizer o mínimo, e surpreendentemente comuns na esfera brasileira de discurso. Comentadores como Reinaldo Azevedo e Olavo de Carvalho muitas vezes partem dos mesmos pressupostos para afirmar a inexistência desse direito-dever de caráter racial. Vou tentar comentar alguns desses pressupostos a seguir, mas aviso logo que cada um renderia um post em si tranquilamente, o que pode inclusive vir a ocorrer um dia.

O argumento do discurso liberal é o mais chocante por basicamente ler somente a metade da história da liberdade. É tentar ser liberal nas chamadas liberdades negativas, uma perspectiva que ainda que importante é limitada, e esquecer completamente o conceito de liberdade positiva. Segundo essa concepção seria justo, por uma questão de igualdade e meritocracia, que todos pudessem disputar livremente, mesmo que Usain Bolt venha a competir com um sujeito de muletas. Esse argumento ignora um dos fatos mais basilares da filosofia política, o de que não basta tratar igualmente se não tratamos de forma desigual os desiguais. Ignorar séculos de preconceito enraizado na própria tessitura da sociedade brasileira é tratar igualmente pessoas sujeitas a contextos bem diferentes. É um argumento que só serve para quem está bem de vida, teve boa criação e se coloca num segmento “vitorioso” da sociedade. Não se trata de um verdadeiro discurso liberal, mas um discurso cuja única liberdade daquele em situação deficitária é lidar com seu sofrimento, enquanto aquele que está em situação melhor está livre para usufruir de suas vantagens. Em vez da liberdade material, liberdade estritamente formal.

A individualização, por sua vez, é uma visão extremamente limitadora, que renega a capacidade da sociedade de incubar e nutrir preconceitos, partindo do pressuposto que a sociedade é igualitária, os cidadãos que, em sua privacidade de sua consciência, não o são. Mas esses cidadãos são formados no bojo dessa própria sociedade, nela que eles aprendem os fundamentos da própria ideia de igualdade, em um trabalho diuturno de conscientização sobre o papel do cidadão na democracia. Dizer que a sociedade não é racista só é verdade em alguns pontos. Se de fato há uma proteção constitucional ao indivíduo, a despeito de suas particularidades, temos grandes partes de nosso arcabouço normativo que ora privilegiam e ora massacram segmentos da sociedade. É um ditado costumeiro entre os que lidam com o Direito Penal que trata-se de um sistema feito para punir – alguns usam o termo moer, como quem mói carne mesmo – as camadas mais pobres. Em uma estrutura profundamente burocratizada, aqueles com menos recursos acabam se alienando das possibilidades de justiça, enquanto o cidadão com mais renda se protege até com benção do padre. Os negros (entre outras minorias que se aplicam no mesmo exemplo e lógica) estão às margens da sociedade não é por um acaso de um indivíduo os considerar assim, mas sim a coletividade de indivíduos, aquela que chamamos de sociedade, ter sido desenhada para mantê-los lá.

O terceiro argumento é o mais ridículo, aquele que traz consigo uma carga pesadíssima de racismo misturado a uma dose embasbacante de ignorância tragicômica. Naturalizar ou normalizar uma situação injusta como sendo tradicional não resolve o problema, sequer explica sua fonte. Apenas lava as mãos e diz “este é o mundo dado”, renunciando qualquer ingerência sobre o mundo “natural”, este mesmo em que pessoas morrem por falta de remédio enquanto esperam que de alguma maneira a cura chegue. A injustiça, ao menos naquilo que atine às relações sociais, é um defeito que pode ser corrigido. O mundo em si não é justo, mas se tem algum lugar em que ele pode ser justo é nos produtos da ação humana. Renunciar à justiça assim é menosprezar milênios de produção de cultura e conhecimento humano.

Após todo esse falatório fica a questão: essa percepção colour-blind é, afinal, libertadora ou perpetuadora de preconceitos? Ela demonstra um mundo que já superou a cisão racial, ou obscurece as injustiças restantes? É possível, atualmente, fechar os olhos para a diversidade racial? É preciso, atualmente, fechar os olhos para a diversidade racial?

Amy Long, pesquisadora da University of Florida, escreveu um artigo exatamente sobre essa questão, pondo-a sobre o contexto da cultura pop. No artigo Diagnosing Drama: Grey’s Anatomy, Blind Casting, and the Politics of Representation (The Journal of Popular Culture, Vol. 44, No. 5, 2011) a autora apresenta uma pesada crítica ao seriado não por ser o colour-blind casting errado em si. Mas pelo seriado simplesmente fingir que conflitos de natureza racial sequer existem. Por ser lastreado nesse princípio de um mundo em diversidade, o seriado não coloca em suas situações dramáticas que movimentam suas histórias qualquer questão racial. É como se no mundo em que está situado o Seattle Grace, o hospital que serve de cenário para a trama, todas as questões raciais tivessem sido resolvidas. Assim, Shonda Rhimes perde a oportunidade de aproveitar o espaço para trabalhar com temas que fazem parte do cotidiano, os eventos que tratam das animosidades que persistem nas relações raciais. Mas é importante notar que a intenção do colour-blind casting é muito interessante. Nós, diante de uma descrição de uma médica ambiciosa ou de um médico bonitão, tendemos a imaginar diretamente uma cor de pele que traduza mais “fielmente” esse arquétipo?

Talvez a saída proposta seja um termo médio, nem a negação completa da raça nem a sua elevação como elemento permanente no discurso político, e, porque não, cultural. O termo “raça” pode ainda ser útil não como identificador de diferença essencial entre os seres humanos. Só existe uma espécie, a humana, que se apresenta em uma multitude de variações, cuja riqueza a vontade política de algumas ideologias quis reduzir a poucas matizes. Mas, fruto desse processo injusto e desumano do racismo, vivemos até hoje sob o peso histórico dos erros dos nossos antepassados. Nada que fizermos servirá de “compensação” ao racismo antigo, mas está em nossas mãos intervir na nossa sociedade de forma a corrigir injustiças, e garantir que, no futuro, o sentido de raça se esvazie em seu âmbito negativo. A diversidade cultural é algo muito maior e mais importante que isso, que é um de seus elementos, uma de suas infinitas cores nessa imensa tapeçaria humana de histórias e experiências.

*** DISCLAIMER: O autor deste post nunca assistiu Grey’s Anatomy, mas ficou curioso para ver se de fato o danado não tem nada de relações raciais em seus episódios. Se assistirá ou não, eis um mistério da fé. ***