A anatomia da persistência da raça

Fale-me mais do seu preconceito racial

Quando o seriado Grey’s Anatomy estreou, em meados de 2005, trouxe ao cenário da cultura pop norte-americana uma nova realidade, a do chamado colour-blind casting. Quando sua produtora principal (cargo que em inglês se dá o nome de showrunner, a pessoa responsável por fazer o show sair do canto) Shonda Rhimes escreveu o episódio-piloto, aquele em que todas as personagens são apresentadas e contextualizadas, não acrescentou qualquer característica de natureza racial à descrição de seus personagens. Rhimes, que é uma negra baixinha que está mais próxima fisicamente de uma Oprah Winfrey do que de um Lorne Michaels, Chuck Lorre ou J. J. Abrams, para citar somente alguns dos showrunners mais famosos dos E.U.A.

Para Rhimes, nós estamos em uma época de diversidade patente. “Nós somos bebês pós-direitos civis, pós-feminismo, e partimos do pressuposto que vivemos em um mundo diversificado”, disse certa vez a executiva. Fruto dessa convicção política toda a fisionomia do programa foi moldada: atores foram escolhidos ignorando suas características raciais. Afinal, nenhum personagem possuía nada além de sua personalidade. Na visão de Rhimes a cor – ou raça, como preferir – deve ser mais uma descrição do que exatamente uma definição, algo essencial à sua personalidade. Ser branco ou negro não te afirma como uma pessoa A ou B, apenas é um elemento de sua aparência, tangencial. Então faria todo sentido do mundo ignorar esses elementos pontuais para dar espaço a uma nova experiência: a televisão pós-racial.

O discurso pós-racial não é exatamente novo. É inclusive extremamente popular na esfera pública de discurso, sobretudo para apontar que toda essa questão racial é datada, faz parte de uma forma de mundo relutante à aceitação da diversidade como um fato da vida. Há vários segmentos da política que apontam que qualquer espécie de política racial seria alicerçado exatamente num conceito que perdeu seu objeto, servindo apenas de casca oca, que acaba prendendo o discurso em elementos retrógrados. Ora, se não se fala mais de “raça” no debate político, então todas as questões políticas deveriam seguir os princípios colour-blind. Ou não?

Há autores que pensam de forma diferente. Esse colour-blind seria uma forma de tirar a questão racial do discurso, mas não faria sumir os problemas oriundos de séculos de racismo. Em recente artigo Sophie Tapper avalia o impacto de políticas colour-blind na sociedade neozelandesa, que é dividida entre os Māori (os nativos) e os Pākehā (os brancos e/ou de ascendência europeia). Da mesma forma como atualmente se discute no Brasil em relação às políticas raciais, argumenta-se no outro lado do mundo se essa diferenciação de raça não estaria mascarando a raiz do problema, a desigualdade econômica. Esse é o ponto de vista defendido por Don Brash, ex-líder do Partido Nacional (um libertário empedernido, que tem em seu currículo votos contra a proibição da eutanásia e da prostituição, entre outras áreas), em um célebre discurso que pauta até hoje o debate político racial na Nova Zelândia. O paradigma de Brash é o de que só existe uma única nação, e qualquer tentativa de exaltar ou afirmar um sub-grupo dessa unidade não terá interesse que não seja o da secessão e divisão no país.

Contudo, tal pensamento também não é de forma alguma aceito pacificamente. Essa lógica, a de que afirmação racial equivale a insuflar o dissenso, faz parte do pacote de ideias que são chamadas de colour-blind racism, ou, numa tradução aproximada, racismo sem cor. Esse racismo seria justamente  a proposta de surrupiar da esfera política a possibilidade do reconhecimento racial, e, com ele, a constatação de diferenças e alteração de injustiças advindas do caráter político da raça. Parte da academia que discorda dessa lógica considera-se que há três elementos essenciais no colour-blind racism. A individualização, o liberaismo discursivo e a normalização.

O primeiro elemento, a individualização, é o argumento que concretiza o racismo no ato que o realiza. Não há racismo como ideologia, mas somente atos racistas, realizados por indivíduos. Essa visão busca afastar a possibilidade de discriminação coletiva, ou mesmo institucional. Formalmente – e constitucionalmente – as pessoas são iguais, afirmar qualquer vantagem acima dessa igualdade subjacente seria o chamado “preconceito reverso”, com um grupo minoritário se afastando do maior voluntariamente. Com base nas conquistas dos direitos sociais da segunda metade do século XX, ele desautoriza o argumento racial afirmando que qualquer preconceito subsistente não é mais problema da sociedade, mas da pessoa preconceituosa.

O segundo elemento é o do liberalismo discursivo, que é a utilização de vários conceitos e elementos do discurso liberal para desqualificar a afirmação racial. Afinal, o que é mais importante, que os negros tenham vantagens ou que todos possuam vantagens iguais? Que o melhor vença, ou o melhor com uma “ajudinha” por causa da sua cor? Que o Estado intervenha em uma disputa livre ou não? O discurso liberal, sobretudo em sua versão mais simplificada e panfletária, é cheio de chavões como “igualdade” e “meritocracia”, que são frequentemente arremessados contra qualquer proposta de política racialmente consciente. Os políticos que rechaçam o discurso racial alegam inclusive estar defendendo os interesses de todas as minorias raciais, já que eles defendem a liberdade em geral.

O terceiro e último elemento é o da normalização. Trata-se de considerar certas situações que o discurso racial aponta como injustas como sendo, na verdade, normais. E por isso se busca estabelecer parâmetros culturais ou comparativos. O melhor exemplo para entender o discurso da normalização é o de outra forma de preconceito, o contra homossexuais. A grande maioria dos opositores do casamento igualitário alegam que um casamento entre pessoas do mesmo gênero não seria um casamento, já que, culturalmente, é esse o nome dado a uma instituição religiosa que tradicionalmente une homem e mulher. Foi a cultura que definiu assim, é assim que as coisas são. Portanto, parte-se de uma espécie de consenso discursivo, reconhecendo que certa informação é dada e certa. No aspecto racial essa normalização se dá de forma ainda mais curiosa: é esse o argumento que diz que, por exemplo, negros são pobres por serem culturalmente menos propensos  à educação, ao contrário de outra “minoria”, os asiáticos. Enquanto asiáticos tem desempenhos escolares brilhantes, negros em geral tendem a figurar em maior número nas listas de evasão e/ou repetentes. É essa a raiz de pensamentos como o daquele Cônsul do Haiti que acusou o país de sofrer maldição por excesso de magia negra, traço natural dos povos africanos. Trata-se de uma análise comparativa: se há tantos países “brancos” ricos e “negros” pobres, deve haver uma relação. As auguras das minorias não seriam, então, uma tragédia acessória, mas uma característica essencial.

Desnecessário dizer que os três argumentos são toscos, para dizer o mínimo, e surpreendentemente comuns na esfera brasileira de discurso. Comentadores como Reinaldo Azevedo e Olavo de Carvalho muitas vezes partem dos mesmos pressupostos para afirmar a inexistência desse direito-dever de caráter racial. Vou tentar comentar alguns desses pressupostos a seguir, mas aviso logo que cada um renderia um post em si tranquilamente, o que pode inclusive vir a ocorrer um dia.

O argumento do discurso liberal é o mais chocante por basicamente ler somente a metade da história da liberdade. É tentar ser liberal nas chamadas liberdades negativas, uma perspectiva que ainda que importante é limitada, e esquecer completamente o conceito de liberdade positiva. Segundo essa concepção seria justo, por uma questão de igualdade e meritocracia, que todos pudessem disputar livremente, mesmo que Usain Bolt venha a competir com um sujeito de muletas. Esse argumento ignora um dos fatos mais basilares da filosofia política, o de que não basta tratar igualmente se não tratamos de forma desigual os desiguais. Ignorar séculos de preconceito enraizado na própria tessitura da sociedade brasileira é tratar igualmente pessoas sujeitas a contextos bem diferentes. É um argumento que só serve para quem está bem de vida, teve boa criação e se coloca num segmento “vitorioso” da sociedade. Não se trata de um verdadeiro discurso liberal, mas um discurso cuja única liberdade daquele em situação deficitária é lidar com seu sofrimento, enquanto aquele que está em situação melhor está livre para usufruir de suas vantagens. Em vez da liberdade material, liberdade estritamente formal.

A individualização, por sua vez, é uma visão extremamente limitadora, que renega a capacidade da sociedade de incubar e nutrir preconceitos, partindo do pressuposto que a sociedade é igualitária, os cidadãos que, em sua privacidade de sua consciência, não o são. Mas esses cidadãos são formados no bojo dessa própria sociedade, nela que eles aprendem os fundamentos da própria ideia de igualdade, em um trabalho diuturno de conscientização sobre o papel do cidadão na democracia. Dizer que a sociedade não é racista só é verdade em alguns pontos. Se de fato há uma proteção constitucional ao indivíduo, a despeito de suas particularidades, temos grandes partes de nosso arcabouço normativo que ora privilegiam e ora massacram segmentos da sociedade. É um ditado costumeiro entre os que lidam com o Direito Penal que trata-se de um sistema feito para punir – alguns usam o termo moer, como quem mói carne mesmo – as camadas mais pobres. Em uma estrutura profundamente burocratizada, aqueles com menos recursos acabam se alienando das possibilidades de justiça, enquanto o cidadão com mais renda se protege até com benção do padre. Os negros (entre outras minorias que se aplicam no mesmo exemplo e lógica) estão às margens da sociedade não é por um acaso de um indivíduo os considerar assim, mas sim a coletividade de indivíduos, aquela que chamamos de sociedade, ter sido desenhada para mantê-los lá.

O terceiro argumento é o mais ridículo, aquele que traz consigo uma carga pesadíssima de racismo misturado a uma dose embasbacante de ignorância tragicômica. Naturalizar ou normalizar uma situação injusta como sendo tradicional não resolve o problema, sequer explica sua fonte. Apenas lava as mãos e diz “este é o mundo dado”, renunciando qualquer ingerência sobre o mundo “natural”, este mesmo em que pessoas morrem por falta de remédio enquanto esperam que de alguma maneira a cura chegue. A injustiça, ao menos naquilo que atine às relações sociais, é um defeito que pode ser corrigido. O mundo em si não é justo, mas se tem algum lugar em que ele pode ser justo é nos produtos da ação humana. Renunciar à justiça assim é menosprezar milênios de produção de cultura e conhecimento humano.

Após todo esse falatório fica a questão: essa percepção colour-blind é, afinal, libertadora ou perpetuadora de preconceitos? Ela demonstra um mundo que já superou a cisão racial, ou obscurece as injustiças restantes? É possível, atualmente, fechar os olhos para a diversidade racial? É preciso, atualmente, fechar os olhos para a diversidade racial?

Amy Long, pesquisadora da University of Florida, escreveu um artigo exatamente sobre essa questão, pondo-a sobre o contexto da cultura pop. No artigo Diagnosing Drama: Grey’s Anatomy, Blind Casting, and the Politics of Representation (The Journal of Popular Culture, Vol. 44, No. 5, 2011) a autora apresenta uma pesada crítica ao seriado não por ser o colour-blind casting errado em si. Mas pelo seriado simplesmente fingir que conflitos de natureza racial sequer existem. Por ser lastreado nesse princípio de um mundo em diversidade, o seriado não coloca em suas situações dramáticas que movimentam suas histórias qualquer questão racial. É como se no mundo em que está situado o Seattle Grace, o hospital que serve de cenário para a trama, todas as questões raciais tivessem sido resolvidas. Assim, Shonda Rhimes perde a oportunidade de aproveitar o espaço para trabalhar com temas que fazem parte do cotidiano, os eventos que tratam das animosidades que persistem nas relações raciais. Mas é importante notar que a intenção do colour-blind casting é muito interessante. Nós, diante de uma descrição de uma médica ambiciosa ou de um médico bonitão, tendemos a imaginar diretamente uma cor de pele que traduza mais “fielmente” esse arquétipo?

Talvez a saída proposta seja um termo médio, nem a negação completa da raça nem a sua elevação como elemento permanente no discurso político, e, porque não, cultural. O termo “raça” pode ainda ser útil não como identificador de diferença essencial entre os seres humanos. Só existe uma espécie, a humana, que se apresenta em uma multitude de variações, cuja riqueza a vontade política de algumas ideologias quis reduzir a poucas matizes. Mas, fruto desse processo injusto e desumano do racismo, vivemos até hoje sob o peso histórico dos erros dos nossos antepassados. Nada que fizermos servirá de “compensação” ao racismo antigo, mas está em nossas mãos intervir na nossa sociedade de forma a corrigir injustiças, e garantir que, no futuro, o sentido de raça se esvazie em seu âmbito negativo. A diversidade cultural é algo muito maior e mais importante que isso, que é um de seus elementos, uma de suas infinitas cores nessa imensa tapeçaria humana de histórias e experiências.

*** DISCLAIMER: O autor deste post nunca assistiu Grey’s Anatomy, mas ficou curioso para ver se de fato o danado não tem nada de relações raciais em seus episódios. Se assistirá ou não, eis um mistério da fé. ***

Advertisements

Tags: , , , , , , , , , ,

About Wagner Artur Cabral

filosofia política e futebol

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: