Uma proposta para salvar o Brasil

Elas podem salvar o Brasil

Hoje a polêmica da internet (suspiro) é um texto do geralmente excelente Blog do Sakamoto. Eu já o recomendei aqui e muitas vezes destilei loas a seu caráter combativo e proposta de fomentar um debate de alto nível entre quem está a favor de discutir.

Em seu texto o articulista, em resposta a uma assombrosa e hilariante coluna da Mônica Bergamo, identifica um profundo ponto de tensão na sociedade brasileira, a cultura da ostentação.  Essa cultura geraria profunda insatisfação nas camadas mais pobres, dando azo à violência retributiva, especialmente contra os mais ricos. Assim, para combater essa mesma violência, é preciso combater a ostentação. Essa classe elitista desvairada e seu choro de gente mimada precisam aprender que dão causa a seu próprio sofrimento.

Por uma questão de honestidade eu gostaria de pedir a quem ainda não leu o dito post que por favor o faça, não quero criar espantalhos ao falar do texto, e se a descrição que acabo de fazer não tenha sido fiel ao texto, não o foi propositalmente, tentei ser o mais próximo possível.

Sakamoto acerta no reconhecimento da profunda cisão causada pela desigualdade social. Rawls tem um conceito chamado “fissuras de comprometimento”. Imagine que a sociedade é um acordo que, como todo bom acordo racional entre partes livres e iguais, deve privilegiar a todos. A partir do momento que alguma parte sai ganhando muito mais que as outras, ou algum dos integrantes perde mais que os demais, vai começar a descredenciar a validade desse acordo. Começam a aparecer ranhuras, frestas naquilo que era, até então, um composto sólido que incorporava os deveres e obrigações de todos os envolvidos. Quando essas fissuras se tornam muito extensas, como rachaduras em um edifício, o prédio está fadado a cair. É aí que eclode uma guerra civil, que o Estado perde o controle sobre a ordem. A ideia de que a ordem é garantida pela coerção estatal é inclusive muito inocente. Ela é garantida pelas pessoas que acham que ela deve ser garantida. Se a maioria dos cidadãos resolver que o Estado não tem mais autoridade não há coerção que resolva. Mesmo que haja um banho de sangue, ninguém é capaz de convencer um povo a se submeter à força. Ainda terá de ser mantido um regime de exceção, e é nesses casos que “brilham” as manobras totalitaristas.

A profunda desigualdade social brasileira é sim um fator de desagregação. A criança no sinal vendendo balinha que vê outra criança da mesma idade brincando com um iPad 3 dentro de uma Grand Cherokee, vestida com roupas finas e tomando Coca-cola obviamente observa perplexa aquela situação, pensando: qual foi meu pecado de ter nascido sem todas essas maravilhas? Sem alimentação todos os dias, sem pais ricos? Quando ela vai a um shopping e é confundida com um pedinte enquanto a outra criança vai com os amigos assistir ao filme da moda com seus amiguinhos, ela se sente terrivelmente excluída.  Ela sente que há dois brasis, e que por mais que ela tenha obrigações para o país que é composto por sua família e seus amigos ela não se sente incluída na mesma sociedade que se encastela em grandes condomínios fechados de casas, cruza a cidade em veículos imensos e grita por aí como se fosse dona do mundo, exibindo toda forma de luxo como um passaporte para o respeito social. O criminoso, na maioria dos casos, é alguém que precisa sobreviver, e para isso toma medidas extremas contra os estrangeiros que habitam em um país desconhecido, ao qual ele nunca pode entrar. (Há o caso dos criminosos sociopatas, mas esses são uma minoria em quantidade e impacto, não adstritos a qualquer classe social).

Nisso Sakamoto está perfeitamente correto. Mas ele erra basicamente em todo o resto.

Quando Sakamoto propõe a criminalização da ostentação realiza um bravado, um arroubo passional, denunciando que os ricos, tão ignorantes em suas torres de marfim, acabam dando causa a sua própria danação. A proposta de criminalizar esse comportamento não pode ser levada a sério – há outro post no forno aqui na Casa dos Comuns que discute alguns dos novos tipos penais criados por esse código, que insiste em criar crimes demais. Mas mesmo a premissa do articulista deve ser rejeitada. Querer vincular o comportamento  extravagante dos ricos ao crime, propondo sua restrição como forma de inibir a criminalidade, é justamente o mesmo argumento empregado pelos debatedores mais misóginos na discussão do estupro. Aqueles que dizem que a mulher que veste uma roupa mais sensual está convidando o estuprador, dá causa ao estupro. O que Sakamoto faz é utilizar precisamente a mesma lógica dos inimigos que frequentemente – e muito razoavelmente, na maioria dos casos – combate. É penalizar a vítima por ser livre, por poder escolher. Muito melhor seria, para Sakamoto, se o rico não pudesse ostentar, assim o meliante não se sentiria compelido a delinquir.

 O ataque vitriólico desferido contra todas as socialites consternadas que depõem na coluna de Bergamo é um ataque ao senso elitista que isola e muitas vezes desumaniza o inferior. Mas não chega ao ponto crucial que é questionar afinal pra quê cargas d´água serve o consumismo. Quando lê as declarações despudoradas das madames em alerta, Sakamoto enxerga deboche contra a sociedade que passa fome, que precisa pegar quatro conduções pra ir trabalhar, que não tem dinheiro para comprar remédios. Afinal, uma bolsa de grife pagaria um mês de vida dessas famílias. O que o blogueiro não percebe é que essas pessoas são um deboche em si. Da mesma forma que o reality show estampado na capa desse post é um profundo ataque à consciência que expõe: essas pessoas não são comendáveis, são profundamente dissociadas daquilo que o resto do país (e potencialmente, do mundo) converge em considerar mundo real, e, por isso, desumanas. O errado não é exibir por aí bens de consumo, mas insistir em uma cultura de consumo em que se é o que se tem. E essa é uma brincadeira glamourosa que simplesmente já perdeu a graça. Apontar esse ridículo é o suficiente. Quem quiser continuar com esse show, que continue. Da mesma forma que um dia foi normal ter orgulho de ser branco, o tempo passa e certas convicções simplesmente deixam de serem consideradas morais.

Nosso país tem caminhado a passos largos para resolver esse problema. Tem buscado reduzir as desigualdades não só econômicas, mas também sociais. Mas ainda há grandes obstáculos na consolidação da democracia nacional, na afirmação de igualdade entre os cidadãos do país. Uma sociedade murada em guetos não é e nunca será integrada. Um dos motivos pelo qual este blog existe é para lembrar, sempre que o tempo dá, que não podemos deixar o espaço público ser privatizado. É o que temos feito nas últimas décadas, desavergonhadamente. Trocamos pracinhas, jardins e áreas comunais por shopping centers, clubes e condomínios fechados. Assim, mesmo todos nós brasileiros sendo iguais, podemos manter a realidade material de que alguns são mais iguais com os outros, e devem permanecer separados. A reconquista da nossa democracia passa pela percepção necessária de que não há nada que separe cidadãos em seu valor e direitos, a despeito de sua condição econômica. Se pudermos engendrar uma sociedade que faça valer integralmente esse princípio, já teríamos caminhado muito. Se conseguirmos ainda fomentar espaços de socialização, para que as ruas não sejam somente dos carros, para que haja pontos de convergência entre todas as idades, classes e credos, ficará mais difícil esse processo de coisificação que é basilar na violência. Não vivemos em uma guerra civil entre trincheiras opostas, vivemos apenas em uma sociedade que apenas ainda não sabe quem é. Se reforçarmos o que nos une – a nossa democracia, nossos direitos, nossa possibilidade de debate – e dermos progressivamente menos atenção às banalidades que julgamos desnecessárias, creio que já estaremos em um bom caminho para ajudar nosso país a melhorar, em todos os aspectos.

Há muito trabalho a ser feito, espero que Sakamoto entenda que para combater o bom combate não podemos nos render às estratégias de quem desumaniza e inferioriza o ser humano. Somos melhores que isso.

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filosofia política e futebol

5 responses to “Uma proposta para salvar o Brasil”

  1. Bruna Pretzel says :

    Costumo dizer que a sociedade de consumo é o espantalho preferido da esquerda nacional, assim como a censura é o espantalho de estimação da “direita” brasileira. Acho que essa história de culpar o consumismo e tentar achar nele alguma “função” é um arenque vermelho (http://en.wikipedia.org/wiki/Red_herring) que, como apontou o @sir_lupa, não só é vermelho pelo contexto de apropriação esquerdista mas também pelo potencial de desviar o foco do debate. Por que as pessoas insistem em achar que criticar o consumo pelo consumo vai fazer com que os consumidores sejam mais iluminados? Parece mais uma moral monástica-cristã (travestida de secularismo socialista), segundo a qual gostar de dinheiro e de bens materiais é pecado. A similaridade dessa linha de argumentação com o puritanismo antipornografia e antiprostituição (que a esquerda progressista, fora as feministas que ainda estão nos anos 80, geralmente condena) é gritante e quase engraçada. Não vejo nenhuma utilidade social na condenação do consumo, assim como não vejo na condenação do sexo e das drogas: se a pessoa tem uma vida vazia por ser viciada em qualquer uma dessas coisas, não é a função do Estado salvá-la de si mesma. Muito menos com uma alteração no Código Penal.

  2. Gil Rocha says :

    Quando eu leio coisas como este texto do seu Sakamoto, a vontade
    é de pegar o MackBook Air e quebrar na cabeça do proprietário e autor
    desta bela bobagem…

  3. Juanita says :

    Hello admin do you need unlimited content for your site ?
    What if you could copy article from other sources,
    make it unique and publish on your blog – i know the right tool for you, just type in google:
    loimqua’s article tool

  4. Linda says :

    Cześć widzę że chyba nie zarabiasz na swoim blogu.
    Mozesz polączyć swoja pasję z zarobkiem. Szkoda marnować ruchu na stronce.

    Jest sposób zeby wyciagnac dodatkowo ładną sumkę, wpisz sobie w google:
    jak zarobić na blogu drugą wypłatę

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  1. Problemas de gente rica « Casa dos Comuns - June 22, 2012

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