Problemas de gente rica

A última polêmica das redes sociais brasileiras envolve uma certa coluna de fofocas que quis mostrar a toda a sociedade (a que lê jornal, pelo menos) como a high society paulistana vive numa bolha, surpresa pela crescente violência que a cerca, sem se preocupar em adquirir visão de conjunto e entender os motivos desse problema. Já adianto que não considero essa constatação nenhuma quebra de paradigmas nem de expectativas. Só que há uma diferença emocional entre criar uma imagem da elite a partir de rumores e ver essa imagem concretizada em entrevistas e declarações não-satíricas. Quando o estereótipo e o real se confundem, as pessoas se assustam e isso cria um desconforto. Compreensível.

O problema começa quando se tenta misturar esse desconforto com tentativas de diagnóstico e propostas políticas a respeito da desigualdade social, da violência e das mazelas da nossa sociedade em geral. Como, por exemplo, dizer que a elite tem alguma espécie de responsabilidade quanto à escalada da violência e quanto à injustiça social na grande cidade; em outras palavras, que ela precisa se tornar “menos idiota” se quiser ver esses problemas resolvidos.

“Ai, que loucura, gente! Agora querem me dar conselho para não ser assaltada! Imagina, para mim, com toda essa experiência de high society!”

Esse tipo de proposta se encaixa bem num gênero de pseudoargumento chamado “implorar pela pergunta” (desculpem-me pela tradução ruim, anglófonos: podem ficar com seu begging the question). O que se quer dizer quando se fala em “responsabilidade”? A elite tem responsabilidade exatamente pelo quê? Para qual finalidade ela tem que se comportar de um jeito menos “idiota” ou alienado? Isso é um problema de verdade ou um arenque vermelho?

Se se postula que a elite tem responsabilidade quanto aos assaltos e à violência, ou isso é uma forma de culpar a vítima pelo crime (e daí o argumento é simplesmente ruim, como o Wagner Artur demonstrou aqui), ou se trata de um mero conselho: ei, pessoal, vocês têm que ver isso aí de comer em restaurante chique e sair de carro importado na rua, porque é perigoso. Nesse último caso, quem “critica” a elite por não atentar para esse fator de risco só está, na verdade, se preocupando com um problema de gente rica: o medo de assalto. Quem é pobre o suficiente para não ter medo de assalto não está nem aí se a elite sai ostentando seus bens materiais – a não ser no sentido de que a ostentação torna mais óbvia a desigualdade social, mas o pobre não fica menos pobre se não tiver consciência da desigualdade. De qualquer modo, antes de condenar o rico, o pobre deseja tornar-se igual a ele (não vou entrar agora no juízo de certo ou errado quanto a esse desejo).

Se, por outro lado, o problema que se quer apontar é a falta de consciência política da elite paulista, que teoricamente favoreceria programas partidários insensíveis à distribuição de renda, o argumento também não convence. Se a elite é minoria numérica, seu posicionamento político não seria uma explicação suficiente para a constante vitória do PSDB e do DEM nas urnas, por exemplo. Não sou cientista política e tampouco tenho uma explicação adequada para isso, mas penso que se deve ter um pouco mais de cuidado quando se afirma categoricamente que a política paulista é “regida” pelos interesses da elite. O que se deve perguntar é por que esses programas partidários têm ganhado o apoio da maioria, não por que a elite vota neles – mesmo porque esperar algo diferente da high society seria completamente ilusório. O alvo da crítica passaria a ser, então, uma parcela maior da população, não apenas quem possui o privilégio de aparecer numa coluna social.

Talvez a versão mais aceitável da crítica seja a identificação de uma contradição inerente ao pensamento da elite, que quer ver o problema da violência resolvido mas não sai de sua bolha para compreender melhor o que gera a violência. Mas é preciso tomar cuidado para não transformar, de novo, esse diagnóstico numa discussão de problema de gente rica: se a elite é inapta a resolver seu medo de ser assaltada, se tem a infelicidade de viver num ambiente onde precisa sorrir porque está sendo filmada o tempo todo, bem, isso é problema dela. Só faz sentido criticar a inaptidão das socialites para entender as necessidades políticas do país na medida em que essa inaptidão tenha alguma repercussão negativa para o resto da população, não para elas próprias. De outro modo, acaba-se caindo num juízo moral discutível – monge em pele de socialista – de condenação da riqueza e do consumo, como se as pessoas consumistas, com suas vidas vazias, precisassem ser salvas de si mesmas.

Penso que misturar a questão do abismo social com a da desigualdade econômica acaba potencializando esse perigo de discutir problemas de gente rica e de negligenciar, portanto, os problemas da maioria da população. É claro que a falta de um mínimo de convivência e de reconhecimento entre as classes sociais está em certa medida relacionada à desigualdade econômica, mas identificar esses dois problemas como um só apenas abre caminho para “soluções” que não resolvem nenhum deles. A solução da desigualdade econômica não está na “tomada de consciência” da elite em relação ao outro – essa é uma questão de superar o abismo social, que não se deve apenas a questões econômicas, mas também à disseminação de preconceitos de toda ordem. Se a desigualdade econômica é tão profunda que impossibilita qualquer integração e colabora para que os preconceitos se multipliquem, ela reclama outros tipos de solução (que deixarei para os economistas proporem).

Em outras palavras, o preconceito e a falta de diálogo são menos causa do que sintoma. Prestar atenção apenas nos sintomas, como se eles fossem magicamente corrigíveis por alguma forma de iluminação moral, é a ingenuidade – ou hipocrisia – de preocupar-se apenas com problemas de gente rica, quando se pretende fazer o contrário.

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About Bruna Pretzel

Arruma malas após a meia-noite e acredita em direito, política e linguagem para além dos contos de fadas.

6 responses to “Problemas de gente rica”

  1. Davi says :

    Então Bruna, o processo é complexo. Porque de fato quem elege qualquer cargo majoritário no Brasil é a população pobre. Mas baseado em que? Basicamente em propaganda eleitoral e apoio midiático (e também em como a qualidade de vida mais imediatamente avaliável está, com o preço do supermercado ou a qualidade do trânsito). E quem paga por essa propaganda? As grandes empresas nacionais e multinacionais. Então você tem um ciclo vicioso, em que para ser eleito o sujeito precisa competir com quem tem muita grana para campanha, e para isso ele precisa de vultosos patrocínios, e para isso ele precisa de um convênio com uma grande empresa, e em troca a grande empresa vai cobrar apoio político. Ou seja, temos todo um ciclo em que a elite controla todo o processo político, elegendo sistematicamente seus representantes (daí que o operário no governo não fez muito diferente do que o cientista social tinha feito). Claro que existem exceções e tal, mas a regra é essa. Especialmente dado que a população não tem educação suficiente nem bons canais para acompanhar a vida política do país fora da época das eleições.
    Mas de qualquer forma, não acho que atribuir culpa a alguém ajuda a qualquer coisa, a grande pergunta não é de quem é culpa, e sim em qual parte dessa cadeia causal uma possível intervenção seria mais frutífera, dado que o quadro é deprimente…

    • Bruna Pretzel says :

      Davi, em termos gerais você está certo, fora exceções em escala macro – por exemplo, a estrutura eleitoral-federativa brasileira que faz com que São Paulo não tenha tanta expressão no cenário político federal e seja, por isso, um pólo de oposição, apesar de concentrar o poder econômico. Acho que o que podemos retirar desse debate é, como você disse, que atribuições apressadas de culpa servem mais ao sensacionalismo que à solução do problema. Foi essa a intenção do post, tentar trazer o foco para a discussão de intervenções frutíferas em vez de apontar erraticamente responsáveis.

      • Davi says :

        Sim, entendo o seu ponto. Mas sinceramente ainda acho a ideia de apontar o dedo na cara interessante em alguns momentos. É claro que fica simplista o argumento, mas acho que serve como um choque, sabe? Tenho certeza que muita gente que não tá nem um pouco interessada em ler textos aleatórios sobre política na internet leu aquele texto do Sakamoto exatamente por causa do título (que é provocativo pra cacete). E isso gerou muito bafafá, e muita discussão improdutiva, mas também gerou discussões produtivas, e deu visibilidade pro problema e para certa perspectiva… enfim, aí já é uma questão de estratégia, eu particularmente não sou adepto da estratégia que ele adotou (voluntária ou involuntariamente), mas acho válido…
        Digo isso especialmente porque a internet está consolidando um certo circuito de debates e reflexões críticas sobre a política nacional, mas esses debates ainda tem pouca penetração entre a maior parte dos usuários. No geral, fica-se pregando para convertidos (o que não é ruim, mas talvez seja possível mais). Acho que o Sakamoto conseguiu atingir alguns não convertidos, mas também pagou o preço…

  2. Bruna Pretzel says :

    Atingir alguns não convertidos? Que eu saiba, ele gerou muita reação negativa dessas pessoas. Acho que a estratégia dele foi um tiro no pé fenomenal…

  3. Bruna Pretzel says :

    Eu conheço gente que deixou de levar o Sakamoto a sério só por causa desse post dele. Eu mesma deixei. Isso porque ele já tinha sido provocativo em outros posts, mas dessa vez ele quis brincar de “fazer a roupa do rei” só pras pessoas dizerem que o rei está nu…

    • Davi says :

      Talvez, acho difícil avaliar… tenho certeza que o filme dele pra muita gente foi queimado, mas não tenho certeza se na contabilidade final o post foi produtivo ou não para o debate sobre a violência urbana… às vezes a primeira reação de certo leitor é de revolta, mas ainda assim algumas ideias ganham um espaço que antes não tinham, como por exemplo a de que a delinquência não é um problema moral… um pouco como a curvatura da vara, você força ela de mais pra um lado, e quando ela volta, ela volta um pouco menos do que a posição original…

      Precisaríamos de algum estudo sobre a “psicologia da persuasão” para estimar qual hipótese é mais provável… heheh

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