Onde fica a Casa dos Comuns

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A Casa dos Comuns completou um ano de existência em Dezembro passado mas só agora deu para, no finalzinho das férias, elaborar um post inaugurando o ano de trabalhos. Depois do primeiro fica mais fácil comentar sobre as pautas à medida em que elas se apresentam. Assim, eu pretendo começar o ano falando sobre como espero que seja 2013, ou como pretendo trabalhar por aqui.

Para começar a conversa gostaria de recomendar a leitura do post “How do you know what you know?” do blog Weekly Sift. O Sift é excelente, sugiro a inclusão em sua mailing list. Toda segunda-feira o seu autor, Doug Muder, faz uma espécie de resumão das principais notícias em discussão nos Estados Unidos, analisando alguns pontos interessantes, sempre com fartas referências. Muder é declaradamente liberal (como eu também sou), daí certamente pode surgir a (razoável) desconfiança de que é um caso clássico de confirmation bias, ou seja, aquela falácia lógica que faz você pensar que a ideia é boa simplesmente por ela concordar com sua perspectiva pessoal.

O post que destaquei é exatamente um contra-argumento para essa suposição de “aliança liberal”. Não que seja conservador, Muder simplesmente apresenta nele alguns apontamentos sobre como separar o som do ruído na internet contemporânea. Nós ultrapassamos a fase do afunilamento midiático das grandes empresas, que, por meio da mídia de massa repetiam visões de poucos grupos oligárquicos. Esse fenômeno ainda resiste – aqui no Brasil especialmente – mas a diferença é que atualmente há alternativa. A democratização (não completa e muito menos irrestrita) do acesso à informação fez que fosse muito mais barato e simples que qualquer interessado (como eu) pudesse montar um blog (como este) para difundir informações que considere relevante. Contudo nessa virada de mesa em prol da diversidade de informação temos um produto incidental problemático: trocamos seis por milhares de fontes de conhecimento e, especialmente no nosso caso, opinião. Como distinguir entre informações as mais próximas da verdade (deixando de lado a discussão filosófica sobre a natureza e tangibilidade da ideia de verdade, por favor) e as opiniões mais interessantes, tanto em profundidade quanto em contribuição para um projeto de cidadania.

A metáfora da distinção entre som e ruído não é acidental. É uma referência ao trabalho do mago da estatística Nate Silver, o seu livro “From Signal to Noise“, incensado recentemente pela mídia norteamericana, e bom excelentes motivos. Quem acompanhou a corrida presidencial dos EUA em 2012 viu aparecer esse sujeito extremamente confiante em suas projeções, seguido por incontáveis sites e jornalistas criticando seus métodos e qualificações só para ficarem desesperados (e essa não é uma hipérbole) diante da acurácia dos resultados. Silver comprovou que os números falam bastante, é preciso apenas atenção, e, claro, um bom método guardado a sete chaves. Mas em seu livro Silver fala ainda sobre o desafio contemporâneo que é fazer essa enxurrada de informação disponível – uma   quantidade nababesca de variáveis – em algo que faz sentido. Ele faz essa análise descrevendo como vários grupos realizam predições. Fica a sugestão, tanto do post do Sift quanto para a leitura do próprio livro de Silver (que está na minha lista de leitura de 2013 e posso eventualmente vir a resenhar aqui).

No mesmo post Muder faz alusão a outro livro: “Blur – How to know what is true in the age of information overload” de Bill Kovach e Tom Rosenstiel. Seguindo a maravilhosa linha dos títulos autodescritivos, o livro busca oferecer dicas para entender melhor especialmente as fontes de informação, para que possamos, então, qualificá-la e aplicá-la adequadamente. Gostaria de retirar a classificação que Muder retirou de Blur (que aviso que também ainda não li) que me parece bastante interessante, e útil para o propósito final deste post. O livro divide o jornalismo em três categorias (com traduções minhas): verificação, asseveração e afirmação. Com a palavra, o autor, em seu idioma original (depois resumo em português):

Journalism of verification. This is the gatekeeper model of the Cronkite Era and the ideal that you will hear expressed by the editors of publications like the New York Times. (For now let’s leave alone the question of how well they live up to that ideal.) Check everything. Get it right before you publish. Be objective. Be complete. Put a wall between news and opinion.

Journalism of assertion. The model most often seen on CNN. Put newsmakers on camera and see what they say. (If you can only get them on camera by agreeing not to raise certain subjects, fine.) Let viewers judge for themselves whether they’re being lied to. Get information out as quickly as possible, even if you haven’t checked that it’s true. Strive for balance rather than accuracy; let liberals and conservatives alike spin the story for your audience, and then “leave it there” rather than check who’s right.

Journalism of affirmation. The model shared by Fox News, the nighttime line-up of MSNBC, and (mostly) the Weekly Sift. Have a point of view and attract an audience that (mostly) shares that view.

Resumindo (e traduzindo): O jornalismo de verificação: só publicar o que é certo, objetivo e confirmado. O jornalismo de asseveração, por sua vez, está concentrado em reportar o que dizem os atores da comunicação na esfera pública. Não informa “a verdade como ela é”, mas sim o que cada um considera como verdade (deixando a cargo do leitor decidir se acredita ou não na versão contada). A última corrente, o jornalismo de afirmação, apresenta um ponto de vista em particular, basicamente pregando aos fiéis.

Não é meu intuito fazer uma classificação da mídia brasileira, seja ela a principal (canais de TV, jornal, etc.) ou internet (portais, blogs, etc.) – apesar que talvez este seja um esforço bastante interessante e válido. Basta dizer, num exercício de autoanálise que nós da Casa dos Comuns estamos na última categoria. É muito bacana dizer que você está apresentando somente o crème de la crème da informação, mas não é isso que nós fazemos. Nós apresentamos discursos apresentados pela internet e introduzimos alguma discussão ou crítica, com a finalidade de fomentar o debate. Nosso público é aquele formado por pessoas interessadas no espaço público, no questionamento da Democracia além de sua formalidade, buscando mais conteúdo (e um sentido mais amplo de justiça e liberdade). Nós temos compromisso com o aprofundamento e a consolidação da nossa esfera de debate, que é, na maioria dos casos, simplesmente pobre.

Um exemplo da nossa pobreza pode ser encontrada na recente publicação do Blog do Sakamoto (que eu mesmo já elogiei aqui mesmo na Casa dos Comuns ano passado, mas parece ter sido há uma eternidade) de um post pregando a difusão das bonecas de pano como fator de igualdade de gênero. Não que não tenha algumas verdades escritas, mas é um carnaval de evidências anedotais que são costuradas em uma forma lógica que parece muito com o estilo da Eliane Brum, só que sem a elegância. Questões como identidade de gênero, identidade de sexualidade, feminismo, cultura da violência, e violência simbólica são todas postas em um liquidificador para apresentar ao eleitor uma narrativa de rejeição a valores que ele provavelmente já rejeita, só precisa de confirmação. E o que cargas d’água a boneca de pano tem a ver? Muito pouco, mas serve pra causar aquele impacto e parecer diferentão. E olha que não estou nem falando dos cavaleiros do apocalipse da internet, me refiro a um “progressista”. Ressalto aqui que não é de interesse do blog se afiliar, nem que seja por meio de links, a blogs que não contribuem em nada a ser discutido. Um passo importante para melhorar a qualidade das nossas discussões é simplesmente parar de falar dos malucos que não tem sequer um exemplo negativo a acrescentar.

Mesmo entre publicações que pretendem lidar com afirmação – pregar para os fiéis, e talvez apresentar as boas novas para um ou outro curioso – deve haver um esforço para avançar sua investigação. Tá bom que às vezes isso pode gerar resultados desconfortáveis, mas o discurso público precisa de sofisticação. Precisa de topoi (plural de topos, que é o grego para “lugar”), pontos de conexão para um debate frutífero. Se vamos discutir o papel do Estado na educação dos filhos, tudo bem. Podemos discutir identidades, sejam elas de gênero, sexualidade, de grupo, ou tantas outras possíveis. Podemos discutir ainda linguagem como forma de controle, desde a tentativa anacrônica de estipular uma “nova língua oficial” até a forma como o gênero deve fazer parte dos sujeitos. Ao fazê-lo, devemos favorecer um debate que produza resultado. Que sugira balizas para análise exatamente dessas variáveis que existem em profusão e que temos dificuldade em entender. Há um mundo novo de relações sociais, com acesso recorde a fatos históricos ou atuais clamando por estudo e interpretação: não podemos nos restringir a repetir os mesmos velhos bordões, precisamos buscar novas soluções para entender nossos tempos modernos.

O papel em 2013 da Casa dos Comuns é tentar atingir a esse ideal. Não temos a estrutura de um jornal, somos escritores independentes e não-remunerados que compartilham um teto virtual e a paixão pela investigação de idéias. Não podemos dar ao luxo de arcar com o jornalismo investigativo do jornal de verificação. Mas não nos contentamos tampouco em fazer um jornalismo de relações públicas, que meramente cita discursos, repassando meias-verdades requentadas e repetidas como cantilenas, geralmente preparadas somente para parecer críveis, não mais que isso. Nossos colaboradores possuem alguma experiência acadêmica, mas este não é um espaço de discussão afunilado por diplomas: o debate deve ser aberto e democrático, a informação deve ser livre e compreensível sem o peso de asteriscos e apostos infinitos. A Casa dos Comuns deseja que em 2013 tenhamos mais discussões, mais polêmicas, mais possibilidades e mais diversidade na especulação sobre futuro do nosso país, pelo bem daquilo que julgamos ser o justo, em prol daquilo que cremos ser o belo. Sobre esses dois conceitos não temos ainda opinião formada, por favor nos ajude a descobri-los.

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